Redefinir Senha

Busca Avançada
Seus resultados de busca
15 de novembro de 2017

10 Museus Imperdíveis!

Destacamos alguns dos principais museus e iniciativas de reconhecimento da memória da população negra no Brasil e no mundo.

A memória da população negra resistiu a séculos de invisibilidade, passando entre gerações por meio da oralidade – a transmissão dos mais velhos, a contação de histórias, a preservação de valores e tradições matriciais. Da mesma forma, nossa história seguiu esse silenciamento, sendo capturada ou subjugada em discursos hegemônicos.

Ainda hoje, o recorte sobre a história da África e da diáspora em museus e livros  requer frequente vigília das iniciativas que buscam valorizar as contribuições sociais das diferentes populações africanas para além do período colonial e da escravidão.

Os museus são como um mosaico de uma história: cada objeto ali preservado é um fragmento da memória devidamente institucionalizado – produz sentido e significado a uma determinada visão dos fatos.  A leitura construída nesses espaços reflete não apenas o passado, mas sobretudo a narrativa transmitida para gerações futuras sobre acontecimentos, tragédias, movimentos e disputas sócio-políticas.

Ao longo desta semana, publicaremos relatos de nossos usuários sobre alguns espaços, como o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, na África do Sul, e o Museu Nacional da História e Cultura Afro-Americana, em Washington, nos Estados Unidos.

 

01. Museu Nacional da História e Cultura Afro-Americana (Washington, Eua) 

A frase em destaque na parede do museu já indica tamanho de sua missão ambiciosa de reconhecimento histórico da contribuição social dos negros nos Estados Unidos: “A grande força da história deriva do fato de que nós carregamos seu peso dentro de nós, somos inconscientemente controlados por ela. A história é, literalmente, presente em tudo o que fazemos”. 

A história é, literalmente, presente em tudo o que fazemos, citação de James Baldwin

 

Entre sua concepção e inauguração, em 2016, foram mais de cem anos de trabalhos e dedicação por diferentes instituições de movimentos civis e de veteranos da guerra civil dos Estados Unidos. Com amplo acervo de detalhes da vida doméstica, relatos de personagens históricos e anônimos da comunidade negra afro-americana e sua trajetória coletiva de afirmação e luta por reconhecimento de direitos civis, o museu é hoje um dos mais visitados do National Hall,  o grande boulevard de Washington dedicado a mais de 20 museus sobre a história dos Estados Unidos e suas personalidades políticas.

Da construção, que representa uma coroa da tradição africana Yorubá, ao grandioso acervo – tudo é pensado para proporcionar uma experiência imersiva aos visitantes.  São quatro andares que representam o percurso ascendente da história da população afro-americana: do porão obscuro, onde se aborda a escravidão, às redefinições de liberdade e atuais lutas contra a violência policial.

02. Museu Afro Brasil (São Paulo)

O Museu Afro Brasil reúne grande acervo e realiza exposições temporárias

Em pleno Parque do Ibirapuera, o Museu Afro Brasil reúne uma das maiores coleções de arte ligada à história da população negra no Brasil. São seis mil obras em um grande pavilhão, abrangendo as diferentes manifestações culturais afrobrasileiras, acervo histórico e ainda exposições de arte contemporânea da África.

A iniciativa surgiu em 2004, concebida pelo baiano Emanoel Araújo, curador do local e doador da maior parte das obras. Por ali passam mais de 180 mil visitantes por ano, que passam a conhecer os rostos negros de grandes referências brasileiras como Machado de Assis, Luiz Gama, Marighella e Alejadinho – este último, homenageado na atual exposição temporária do museu.

O espaço também abriga um teatro, em homenagem a Ruth de Souza, e uma biblioteca dedicada à Carolina de Jesus, autora de Quarto de Despejo, que tem destaque na curadoria de fotografias, recortes de jornais e peças ao longo do museu. Capoeira, Samba, Candomblé, Futebol, Artesanato e Escultura estão entre outros destaques do grande acervo, disposto em três andares.

 

03. Museu do Apartheid (Joanesburgo, África do Sul)

Este é, sem dúvida, o espaço mais emblemático desta lista pela  não apenas pela relevância histórica, mas também pela impactante e indescritível experiência proporcionada aos visitantes. Já na bilheteria o público é segregado aleatoriamente com bilhetes diferenciados para pessoas brancas ou não brancas, o que direciona parte do percurso  do museu, reforçando a violência real e simbólica que marcou a história do país – e da humanidade.

Lemas do museu exibidos no hall de entrada

O espaço foi inaugurado em 2001 numa grande via expressa que liga o centro da capital Joanesburgo às periferias chamadas de Townships, como Soweto, onde viveu o líder Nelson Mandela e foram registrados grandes revoltas populares negras contra o regime de segregação racial do Apartheid.  O museu abriga diversos vídeos, documentários e salas de exposição para situar de forma didática a história de lutas e disputadas raciais do País – desde os primórdios da ocupação e colonização europeia – disputada por holandeses, britânicos e em menor escala, portugueses –  na região ocupada  pelo Império Zulu, com grande potência militar.

Destes embates, firmou-se a supremacia branca de descendentes de holandeses que mais tarde viria a institucionalizar nas leis do País a segregação racial. Os negros, indianos e outras minorias étnicas que viviam no local eram impedidos de frequentar determinadas áreas das cidades, confinados nas periferias, sem serviços públicos, direito a transporte, manifestação ou expressão política. A opressão intensificada a partir da década de 1940, com a oficialização do regime do apartheid, gerou amplas e violentas revoltas populares em diferentes estágios e muitas lideranças, relembradas em detalhes no museu.

 

04. Museu Afrobrasileiro (Salvador-Ba)

Um dos mais antigos do País, o museu foi inaugurado em 1982 e integra o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da Universidade Federal da Bahia. Localizado no Pelourinho, no prédio secular da primeira Faculdade de Medicina do País, o espaço abriga um acervo com peças de origem ou inspiração africana, sendo dedicado a aspectos históricos, artísticos e etnográficos das populações africanas e sua contribuição para a formação social do Brasil.

Um dos destaques do museu é o conjunto de 27 painéis de dois metros de altura, esculpidos por Carybé, sobre temas, mitologias e divindades do Candomblé.  O acervo tem divisões sobre diferentes povos tradicionais africanos, ampla coleção de materiais religiosos e também esculturas, artefatos particulares e obras de arte. Parte da coleção foi organizada pelo pesquisador e fotógrafo francês Pierre Verger, que viveu durante muitos anos na Bahia pesquisando as manifestações de matrizes africanas.

Alguns dos painéis de Carybé, que retratam as divindades do Candomblé

 

05. Robben Island (África do Sul)

Entrada do presídio Robben Island, onde se lê: Servimos com orgulho

O memorial foi erguido numa ilha a poucos minutos de barco da Cidade do Cabo, no litoral da África do Sul. Durante o regime do apartheid, o local era um dos principais (e muitos) presídios nacionais para ativistas políticos que denunciavam e organizavam atos e revoltas contra o sistema racista local, que vigorou por mais de 40 anos. O presídio foi desativado e transformado em centro de memória da luta anti-apartheid, recontando as condições em que eram submetidas alguns dos principais líderes negros da humanidade – como Nelson Mandela.

O ativista e ex-presidente da África do Sul permaneceu no local por mais de 20 anos. Ali, era confinado em uma cela de menos de 4 metros quadrados, com apenas uma cama, um criado mudo e uma janela. Ele e os demais presos eram submetidos a trabalhos forçados no local – em uma pedreira, cortando pedaços imensos de rochas por longas horas todos os dias. Os presos também não podiam receber notícias externas, e tinham as cartas censuradas pela direção do presídio.

O local abriga hoje uma visitação temática, com passeio pela área da pedreira, pela vila onde moravam os carcereiros e também pelas celas do presídio. Um ex-detento conta a história do local, as condições e restrições impostas aos líderes anti-apartheid e a convivência entre os presos.

06. Museu do Percurso Negro  (Porto Alegre)

Pegada Africana, localizada na Praça da Alfândega

Com uma proposta diferenciada no País, o Museu resgata marcos do espaço urbano de Porto Alegre ligados à história da população negra. O objetivo da iniciativa, concebida ainda na década de 90, era demarcar os territórios onde a população negra se estabeleceu na cidade, evitando seu apagamento: sejam bairros tradicionais, áreas centrais e monumentos culturais ou históricos.

Um dos exemplos citados pelo historiador Pedro Vargas, um dos responsáveis pelo espaço, é o Parque Farroupilha, conhecido como ‘Redenção’. O local ganhou o nome por ter sediado atos para arrecadação de dinheiro para compra de cartas de alforria a escravos – os bairros próximos eram tradicionalmente habitados pela população negra.

Outro ponto emblemático pode passar despercebido por quem visita o Mercado Público, no centro da cidade, em busca de opções de gastronomia tradicional e artesanato. A obra “Bará do Mercado”, que representa a entidade Bará (Exu) das religiões de matrizes africanas. A memória oral indica que alguns adeptos da religião teriam consagrado à área à entidade após alguns a morte de alguns homens escravizados que trabalhavam na construção do mercado, há mais de 150 anos. O local ainda recebe oferendas e a tradição religiosa indica que ele representa bons caminhos.

A primeira etapa do Museu de Percurso do Negro foi concluída em 2011 e contou com a colaboração de diversas entidades do movimento negro. Entre os locais que compõem o trajeto estão a Obra Tambor, na Praça Brigadeiro Sampaio, próximo à Usina do Gasômetro; a Praça da Alfândega, onde uma “Pegada Africana”, e no Largo Glênio Peres, onde está um grande mural chamado “Painel Afrobrasileiro”, no Chalé da Praça XV.

 

07. Instituto Pretos Novos (Rio de Janeiro)

IPN reabre exposição sobre o cemitério de africanos no porto do Rio

Um dos principais espaços da memória negra no País, o Instituto Memorial dos Pretos Novos (IPN), no Rio, é um exemplo de como a história da população negra é negligenciada nos espaços formais. O espaço independente reabriu ontem  após dois meses sem verbas oficiais – mesmo tendo papel destacado no reconhecimento do Cais do Valongo, região onde está localizado, como Patrimônio da Humanidade  pela Unesco.

Localizado na região portuária do Rio, conhecida historicamente como ‘Pequena África’, o local abriga mais de 5 mil fragmentos de ossos, que permitiram a identificação 28 corpos com idades entre 18 e 25 anos, possivelmente no período entre 1770 e 1840. Arqueólogos e pesquisadores afirmam que o acervo é único no mundo, pelo registro histórico de africanos enterrados no período colonial.

Além dos fragmentos de ossadas, há material arqueológico, como pontas de lança, argolas, colares, contas de vidro, peças de barro, porcelanas e conchas – artefatos atribuídos como amuletos dos homens e mulheres enterrados na região. O acervo foi recuperado na década de 90, após os donos do sobrado iniciarem uma reforma no endereço. Sem conhecimento sobre o tema, eles começaram a desenvolver por conta própria pesquisas para preservação do material.

Em 2017, mais de 13 mil visitante estiveram no local, que ainda está em obras. O espaço também realiza circuitos turísticos sobre a memória africana na região portuária, passando pelo Cais do Valongo e Quilombo da Pedra do Sal. A reabertura ocorre após a premiação em edital de preservação da memória afrobrasileira, realizado pela Cadon – Centro de Apoio e Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves, com o patrocínio da Petrobrás.

 

08. Mina Chico Rei (Ouro Preto, MG)

Além da Mina, há objetos e documentos em exposição

Um dos principais pontos turísticos de Ouro Preto, em Minas Gerais, é uma das muitas minas da região com um detalhe histórico: foi comprada por um dos seus trabalhadores escravizados, que hoje dá nome ao memorial que retrata as condições da vida dos negros que deram suas vidas para gerar a riqueza do ouro e joias do Estado e do Brasil colonial. Conta a história oral que um dos trabalhadores, Chico Rei, nascido no Congo, conseguiu comprar sua carta de alforria e a própria mina escondendo em seu cabelo pedaços de ouro e metais preciosos encontrados ali – outros mineiros também faziam isso e eram acobertado por religiosos da região.

A mina é uma das maiores da região, anteriormente conhecida como Encardideira. Tem uma galeria de 11.500 metros, que percorre os subterrâneos dos principais pontos turísticos da cidade, como a Praça Tiradentes. Toda a mina foi totalmente escavada de modo artesanal pelos negros escravizados. Entretanto, hoje a visitação só  é permitida nos primeiros 50 metros, onde há iluminação artificial para permitir a circulação dos turistas. Além da visitação à mina, o espaço abriga um memorial com ferramentas, fotos e registros históricos do período colonial.

 

09. Cafua das Mercês (São Luís, Maranhão)

O sobrado histórico era um dos pontos de comércio de escravos

O pequeno sobrado do século XVIII  é um espaço emblemático para a construção do Museu do Negro, como é mais conhecido o Cafua das Mercês.  Ali eram abrigados em condições insalubres, sem ventilação adequada, os negros que aportavam no Portinho, trazidos da África para serem comercializados entre os grandes casarões do bairro.

O Museu é um dedicado à preservação da memória da forte presença,da cultura afro no Maranhão. Ele reúne artefatos do período colonial e da escravidão, além de objetos e obras de arte da África, provenientes de grupos e etnias diversos, como Bambara, Dogon, Senufo e outros.

Há também acervo próprio da cultura negra local, especialmente as manifestações do Tambor de Mina, expressão cultural ligada às religiões de matrizes africanas.  Entre os objetos estão roupas, acessórios  e instrumentos musicais utilizados nos rituais religiosos da Casa das Minas, um dos principais terreiros do Maranhão, e outras casas de matriz africana tradicionais.

10. Museu da Abolição (Recife)

Um dos quadros expostos no Museu

É também um dos mais antigos museus do País, inaugurado no dia 13 de maio de 1983, como celebração à assinatura da Abolição da Escravatura no País. Entretanto, sua concepção data ainda da década de 50, como uma homenagem à lideranças abolicionistas pernambucanas como Joaquim Nabuco.

Sua foi oficialmente criação autorizada pelo então presidente Juscelino Kubitscheck em 1957. Mas seu funcionamento foi interrompido em dois diferentes momentos, sendo a última reabertura realizada somente em 2008, já com uma nova proposta narrativa descrita na exposição de inauguração: O que a abolição não aboliu.

O acervo reúne mais de 130 peças, entre objetos históricos ligados à escravidão, como objetos da Casa Grande e Engenhos, objetos religiosos e selos, moedas e medalhas alusivas à abolição.  Também há uma biblioteca, documentos históricos, fotos e registros audiovisual de diferentes períodos históricos.

A nova narrativa foi criada a partir de uma discussão com diferentes organizações da sociedade civil que durou três anos – realizada no período em que o museu ficou fechado por falta de verbas, segundo o site oficial. A proposta atual dedica parte do espaço físico do museu, um sobrado histórico de Recife, a mostras temporárias de arte e cultura afrobrasileira contemporânea.

 

Você já visitou alguns desses museus? Conte para gente como foi sua experiência! Sua voz é parte fundamental na construção de novas narrativas, contemporâneas, sobre a diáspora africana! Escreva para [email protected]!

#VivaDiaspora