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8 coisas que as viajantes negras querem que você saiba

Quero ser muito franca: é frustrante que, em pleno 2019, este tópico ainda seja relevante

Por Joanna Franco 

 É uma vergonha ver que mulheres negras como eu não estão viajando muito. Ao observar a comunidade de blogs e vlogs de viagem, percebo que sou uma das poucas. Por isso, espera-se que eu fale em nome de todo o meu gênero e minha raça: de mulheres negras.

Minha experiência não deveria ser um símbolo de toda a demografia das mulheres negras, mas, como mulher negra, são várias as coisas que experimentei, percebi e gostaria de chamar a atenção.

 

  1. Nós mal existimos

É 2019, e quando você vê mulheres negras viajando, geralmente elas ainda são imigrantes lutando por vidas melhores para si e seus filhos, trabalhando como empregadas e babás, assim como minha mãe. Claro, há mulheres negras viajando pelo mundo todos os dias, mas a proporção, comparada a todos os outros viajantes, é minúscula.

Viajar é um privilégio, portanto, simplesmente considerado algo que não é para os negros – o que é bem chato, devo dizer, como uma mulher negra que está ativamente tentando mudar essa perspectiva.

Viajei por cerca de seis anos e não vi mais que uma dúzia de mulheres negras em voos, excursões, hotéis ou hostels. É bastante solitário não ver pessoas parecidas com você nos lugares.

 

  1. Nós carregamos mais peso que o viajante médio

Como há tão poucas de nós viajando por aí, ao voltarmos de uma viagem transformadora, sentimos o dever moral de compartilhar nossa experiência com o mundo – e, mais importante, com outras mulheres negras. Seja para trazer histórias de racismo, ignorância, elogios ou amizades em lugares incomuns, queremos compartilhar nossa jornada. É da natureza da maioria das mulheres ajudar causas e pessoas, então nos sentimos pessoalmente responsáveis ​​por incentivar nossas irmãs.

Como uma influenciadora digital, sinto esse fardo cada vez mais com meus novos seguidores e leitores. Nós carregamos o peso e a responsabilidade de falar em nome de todas.

 

  1. Nós experimentamos mais do que o assédio comum

Todas as mulheres têm que lidar com homens irritantes, autoritários e grosseiros nos assediando enquanto andamos casualmente por aí, mesmo em nossas próprias cidades. 

Teve aquele vídeo viral que mostrava uma mulher branca andando por Nova York e filmando secretamente todas as provocações que experimentava, na maioria das vezes vindas de homens negros ou latinos. Lembro-me de ter lido críticas a esse vídeo – mulheres negras e hispânicas achavam que uma mulher branca não poderia nem chegar perto de saber o que temos de experimentar em relação ao assédio dos homens.

Então eu entendi a angústia delas durante minha última viagem a Cuba. Fiquei furiosa com a quantidade de cubanos, a maior parte morenos ou negros, que me jogavam sonoros beijos, assobiavam, gritavam “LINDA MULHER” e me seguiam por quarteirões. Eu os ignorei e usei o meu silêncio para refletir e observar. Vi que eles não faziam o mesmo com as mulheres brancas; pelo menos nunca presenciei a mesma persistência e agressão.

Esse tipo de tratamento não é limitado a Cuba apenas; acontece em qualquer lugar onde estão homens negros e mestiços. Experimentei a mesma situação no Harlem, quando um amigo branco me disse sem rodeios que nem suas namoradas loiras e gostosas eram tão assediadas quanto eu.

Mulheres brancas recebem uma espécie de senso de respeito sem saber, pelo menos de homens negros e latinos. Há uma ideia não explícita de que mulheres brancas são protegidas por homens brancos, e homens negros simplesmente sentem que não podem assediar uma mulher branca – enquanto homens negros veem mulheres negras como “sua gente” e, portanto, acham que podem agir e dizer o que quiserem. 

E quem está protegendo as mulheres negras? É o que eu gostaria de saber.

 

  1. Somos consideradas feias na maioria dos países

Apesar do alto nível de assédio que sofremos, não somos consideradas bonitas na maior parte do mundo, principalmente porque as sociedades simplesmente não estão acostumadas ao nosso cabelo crespo, pele marrom e corpo cheio de curvas. Os estereótipos que as sociedades guardam sobre mulheres negras nunca contêm as palavras: bonita, graciosa, inteligente ou apegada; algo que aprendi durante uma viagem para o Egito.

Fiquei tão surpresa com a franqueza dos egípcios que fiz um vídeo sobre como é ser uma mulher negra e viajante. O que ouvi foi: “Jo, você é a primeira mulher negra que eu acho bonita; sempre pensei que elas eram enormes e gordas, barulhentas e feias”. Um amigo querido disse essas palavras na minha cara e nem fiquei brava com ele, só decepcionada com a ignorância por trás dos padrões de beleza internacionais.

Experimentei várias situações em que fui ignorada em restaurantes e lojas enquanto viajava com meus melhores amigos que, apesar de mestiços, têm pele mais clara que eu. Eles que tinham que pedir a conta, bebidas ou serviços para que a gente fosse atendido com um sorriso.

 

  1. Nós surpreendemos as pessoas

Por causa de todas essas noções preconcebidas sobre mulheres negras pelo mundo, quando viajamos ajudamos a amenizar a ignorância sobre isso. Quanto mais estamos presentes nos ambientes de viagem, mais mudaremos o estereótipo de “mulher negra e feia”.

Tive várias conversas com homens e mulheres que ficaram genuinamente surpresos com minha habilidade de não somente viajar, mas de abrir um negócio a partir do meu estilo de vida. Quando começo a falar em várias línguas então, eles ficam doidos. Não deveria ser uma surpresa, mas pelo menos tenho o prazer de ver o queixo deles caírem.

 

  1. Não, você não pode tocar no nosso cabelo

Tenho quase 99% de certeza de que todas as mulheres negras já vivenciaram momentos em que estranhos vêm com tudo para agarrar um fio de cabelo, sentir uma mecha ou mexer em um cacho – isso não é legal. Claro, estamos dispostas a tirar suas dúvidas sobre nosso cabelo, mas como alguém pode achar que é ok enfiar os dedos sujos no couro cabeludo de outra pessoa?!

Sobre cabelos, sei que todas as mulheres lutam para manter suas madeixas macias enquanto estão na estrada, mas encontrar produtos para cabelos crespos no exterior é mais difícil do que encontrar uma agulha no palheiro – razão pela qual meu cabelo sempre fica volumoso a cada viagem. A maioria das viajantes mantém o cabelo o mais natural possível: é mais fácil assim.  

  1. Somos curiosas sobre outras mulheres negras   

Todas as mulheres negras têm diferentes histórias, mas carregar essas duas identidades coladas às nossas vidas faz pensar sobre as provações e dificuldades de ser uma mulher negra em outros lugares. Somos veneradas em Cuba? Adoradas em Portugal? Evitadas na Dinamarca? Podemos nos casar com alguém de nossa escolha na África do Sul?

Temos dúvidas sobre o que ser uma mulher negra significa globalmente e, por isso, sentimos empatia por nossas irmãs.

 

  1. Somos inspiração e temos orgulho disso

Como somos poucas na comunidade de viajantes e são muitas as confusões atreladas à nossa experiência, sentimos um certo orgulho a cada viagem que fazemos. Quando pisamos fora de nossas casas e embarcamos em uma nova jornada, não é só para ver algo bonito ou para tirar fotos maravilhosas para o blog, é também para mudar a reputação das mulheres negras em todo o mundo.

 

Texto publicado originalmente em 2016: https://shutupandgo.travel/8-things-black-women-travelers-want-know/

@shutupandgo

@damonandjo