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13 de dezembro de 2018

As origens do Afropunk

Como uma sala de bate papo virtual originou um dos maiores festivais de música e representatividade negra da atualidade

 

Histórias que começam com pequenas iniciativas e que de maneira orgânica tomam grandes e expressivas proporções merecem ser contadas. Este é o caso do Festival Afropunk.

O sentido da palavra afropunk refere-se à participação de afrodescendentes no cenário punk, movimento musical de contracultura surgido nos EUA e na Europa dos anos 1970.

Ao longo de sua história, a cena punk sempre teve um protagonismo de bandas e discursos brancos. Os negros que se interessavam pelo movimento não eram contemplados, e temas como representatividade não chegavam a ser uma questão, considerando que a própria presença de negros nesses meios ainda era rara.

Isso levou James Spooner, um jovem artista e cineasta, a questionar esses padrões e espaços, e a articular punks negros não representados nesse cenário – no início dos anos 2000.

Spooner teve a ideia de filmar alguns relatos de jovens que frequentavam clubes e shows punks, e compilou esses vídeos num documentário intitulado Afropunk. O filme surgiu como um manifesto que reunia depoimentos sobre como era ser as únicas pessoas negras no ambiente, como era se sentir deslocado em suas comunidades – que normalmente vinculava o negro exclusivamente às expressões artísticas como hip hop e R&b -, e também resgatava a memória de que o rock’n roll de Chuck Berry e Little Richards é negro, mas que foi desapropriado de sua origem pela cultura branca.

O documentário foi lançado em 2003 e rodou algumas salas de exibição nos EUA, sendo premiado no Toronto International Film Festival, o que o impulsionou ainda mais. Redes sociais como YouTube e Facebook não existiam na época, e a obra de James Spooner, dentro desse contexto, teve uma repercussão tanto expressiva quanto inesperada. Um grupo que até então não era somente desarticulado mas também inexistente frente a uma cultura predominantemente branca e eurocentrada se reconheceu naquelas narrativas.

O filme foi hospedado em um site que continha uma sala de conversa virtual, e o crescente número de membros surpreendeu o cineasta. Então, para a centésima exibição de seu filme, que ocorreu em 2005, Spooner teve a ideia de contratar uma banda para o fechamento do evento. A convidada foi a Stiffed, de pop punk feminino, cuja líder hoje é vocalista do Santigold.

Foram três dias de apresentações sob o nome de “Liberation Sessions”, sediadas em clubes como o histórico CBGB, The Delancey e o Brooklyn Academy of Music (BAM).

Surpreendentemente, vieram pessoas de toda parte do país. Eram pessoas que já se falavam através do site, que trocavam informações e experiências e que na ocasião do evento combinaram de fazer um grande piquenique. Dali pode-se apontar o surgimento da essência do que viria a ser o Festival Afropunk.

Percebendo que aquilo tudo era um grande e singular movimento artístico-cultural em ascensão, Mathew Morgan, o bem-sucedido empresário da Stiffed e de outros grupos da época, se juntou a James Spooner nessa empreitada.

O Afropunk, que começou no Brooklyn sem maiores pretensões, hoje conta com várias edições em grandes cidades do mundo, como Londres, Paris e Atlanta; expandiu suas possibilidades musicais para abranger ritmos como hip hop, r&b e neo-soul, sempre com um line up de bandas e artistas renomados da música negra, além do que é mais característico no evento: o apelo fashion de seu público, que já é marca registrada do festival.

Nos próximos textos, vamos saber um pouco mais sobre os idealizadores do Afropunk, de como e por que o público é também a grande atração, e claro, sobre a edição histórica do Afropunk em Joanesburgo, África do Sul, que acontecerá agora, na chegada de 2019. Fiquem ligados!