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Bembé do Mercado – Patrimônio Cultural do Brasil

A gente sabe que a Lei Áurea e a Princesa Isabel não aboliram efetivamente a escravidão como estrutura central da economia, do pensamento e da sociedade brasileira. Porém, no 13 de maio de 1888, muitos negros se permitiram celebrar a tão sonhada liberdade, cantando e dançando pelas ruas, praças e senzalas de todo o País.

Na Bahia (sempre lá), desde então, todos os anos os negros voltam a ocupar Praça do Mercado, em Santo Amaro, no que se considera a maior festa religiosa de matriz africana em espaço público.

Conta a memória oral que foi João Obá, um africano de origem malê já alforriado, quem primeiro ocupou as ruas centrais com atabaques, flores, frutas sob um barracão de palha onde se dançou e cantou em reverência aos orixás por três dias seguidos – antes que uma grande oferenda coletiva fosse entregue no mar como agradecimento às deusas.

Desde então, no mesmo local, o Largo do Xéreu, um grande candomblé se forma todos os anos para reunir filhos de santo de quase 100 diferentes casas religiosas da região, além do povo preto e seus descendentes de diversas cidades do recôncavo baiano, do Brasil e do mundo – além de todos aqueles que reverenciam a cultura matricial e a liberdade.

Com rodas de capoeira, samba, encenações populares e muita comida, a manifestação logo se tornou uma celebração à vida e à fartura, sendo dedicada especialmente às divindades das águas, como Yemanja e Oxum.

A repercussão foi tamanha, que pelos quatro cantos da Bahia pós-abolição se houvia falar da Festa de Preto ou do Candomblé da Liberdade, os nomes que a festa ganhou antes de se popularizar como Bembé do Mercado. Ainda hoje, é considerado o maior candomblé de rua do mundo. Em 2019, a celebração foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil.

Agora, imagine o que representava, em 1889, a ocupação do largo do mercado municipal por negros e atabaques. Àquela época (!), a icônica cidade de Santo Amaro era um pólo açucareiro e de alimentos, comandada por uma elite senhorial branca e católica, e com uma estrutura social marcada pela escravidão.

Até então, as manifestações culturais e práticas religiosas dos negros não eram aceitas livremente mesmo dentro dos terreiros. Elas aconteciam somente com autorização oficial, ou como era mais comum, associada às manifestações católicas – o tão questionado sincretismo.

No dia 13 de maio, porém, a praça do mercado foi ocupada sem permissão ou aviso prévio pelos atabaques, pelas roupas de santo e pelo coro dos filhos de João de Obá. O mercado era o local de grande fluxo de negros libertos e ponto de encontro com escravizados, que vendiam as mercadorias produzidas no regime colonial.

A ocupação daquele espaço com a festa é lida, pela historiografia, como um ato político, sendo o mercado o grande protagonista da festa.

No aspecto religioso, o Bembé se caracteriza como uma obrigação destinada às divindades das Águas. Todos os ritos tradicionais do Candomblé são realizados em cerimônias específicas nos três dias de festa: Primeiro, o Padê de Exu e o Orô de Iemanja e Oxum. No segundo dia, o Xirê é realizado em plena Praça do Mercado e, por fim, a entrega das oferendas.

A celebração envolve mais de 100 comunidades religiosas da região, mas atualmente é liderada pela Associação Beneficente e Cultural Ilê Axé Qjú Onirè, e o sacerdote Pai Pote. Foi ele quem solicitou o reconhecimento da festa como patrimônio em todas as esferas e autoridades políticas, desde 2012.

Apesar do caráter religioso, a festa sempre mobilizou diferentes setores da cidade, desde comerciantes e pescadores a ativistas políticos. Como manifestação cultural, se reinventou ao longo dos anos e incorporou diferentes linguagens populares, tradicionais e folclóricas. Entre elas, Maculelê, o Nego Fugido, cortejos femininos, rodas de samba e capoeira, entre outras manifestações da cultura popular e da diáspora africana.


Confira um vídeo sobre a tradição do Bembé:

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