Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo são homenageadas no Carnaval do Rio
O Carnaval do Rio de Janeiro reafirma sua vocação de grande livro aberto da história brasileira. Se em 2024 a Portela levou para a avenida as páginas de Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, em 2026, duas escolas de samba transformam a Sapucaí em biblioteca viva ao cantar as trajetórias e personagens fundamentais da literatura negra: a Unidos da Tijuca homenageia Carolina Maria de Jesus, enquanto o Império Serrano reverencia Conceição Evaristo. Mais do que exaltação biográfica, as agremiações afirmam a palavra negra como fundadora de memória, denúncia e futuro.
Carolina Maria de Jesus (1914–1977) escreveu a partir da fome, da favela e da recusa ao silêncio. Catadora de papéis, mãe solo e autodidata, transformou o cotidiano da favela do Canindé, em São Paulo, em literatura de impacto mundial. Quarto de Despejo (1960), seu livro mais conhecido, rompeu fronteiras e revelou ao mundo uma escrita direta, atravessada por racismo, miséria e lucidez política. Outras obras, como Casa de Alvenaria e Diário de Bitita, ampliam esse projeto literário que nasce da experiência e da escuta.
É essa trajetória que a Unidos da Tijuca leva à avenida em um enredo “Carolina Maria de Jesus”, estruturado como capítulos de uma vida. Da infância em Minas Gerais, quando ainda era Bitita, à chegada a São Paulo, Carolina surge como mulher que aprendeu a ler o mundo antes mesmo de dominar as letras. Sua escrita, forjada na oralidade e na observação do cotidiano, transforma dor em denúncia e sobrevivência em linguagem.
Na Sapucaí, a Tijuca apresenta não apenas a imagem da catadora de papéis, mas a intelectual que recusou ser enquadrada como curiosidade social. O samba reivindica sua potência criadora, sua indisciplina diante das normas e sua palavra como gesto de enfrentamento. A escola do Borel transforma a escrita de Carolina em verbo político e reafirma seu nome como assinatura e legado. A Unidos da Tijuca será a última escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval, dia 16 de fevereiro, na disputa pelo título do Grupo Especial.
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Império Serrano reverencia Conceição Evaristo
Conceição Evaristo construiu uma das obras mais consistentes da literatura brasileira contemporânea a partir da memória, da experiência e da ancestralidade das mulheres negras. Nascida em 1946 numa favela de Belo Horizonte, é autora de livros como Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos d’Água. Doutora em Literatura Comparada, criou o conceito de “escrevivência” para nomear uma escrita que nasce da vida e transforma vivência em narrativa coletiva.
Essa perspectiva orienta o enredo “Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu” do Império Serrano, escola historicamente marcada pelo protagonismo feminino. Inspirada na escrevivência, a verde e branca da Serrinha constrói uma travessia poética em que literatura e território se confundem. A personagem Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu conduz a narrativa entre infância, favela, magistério e criação literária.
A avenida se enche de rios, lavadeiras, becos e memórias que falam de perda, resistência e sobrevivência. Cada cena reafirma a escrita como gesto político diante do genocídio, do feminicídio e das desigualdades estruturais. No Império Serrano, literatura não é abstração: é corpo, chão e voz coletiva. Atualmente na Série Ouro, a escola busca o retorno ao Grupo Especial e será a quarta a desfilar no sábado, dia 14 de fevereiro.
Ao colocar Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo no centro do maior espetáculo popular do país, Unidos da Tijuca e Império Serrano fazem mais do que homenagens. Elas rompem silêncios históricos, reposicionam mulheres negras como intelectuais centrais da cultura brasileira e transformam a Sapucaí em espaço de leitura coletiva.
No Carnaval, a palavra preta não desfila: ela permanece
Qual seu enredo favorito? Por aqui, torcemos para que as palavras dessas duas escritoras imensas alcance ainda mais leitores.
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12/02/2026