Categoria: cultura negra

Museu do Recôncavo Wanderley Pinho: um novo espaço de narrativas ressignificadas

Museu Do Reconcavo Wanderley Pinho 1

Após restauração, memórias negras e indígenas ganham centralidade


No coração do Recôncavo Baiano, às margens da Baía de Todos-os-Santos, a memória da Bahia reencontra seu lugar de escuta. O Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, instalado no histórico Engenho Freguesia, símbolo do ciclo do açúcar, do século XVI, foi completamente restaurado e reinaugurado em dezembro de 2025.

Fechado por 25 anos, o novo museu traz agora exposições multimídia, iluminação cênica e áreas requalificadas. A grande mudança, no entanto, é a nova proposta curatorial, refletindo o passado escravocrata do lugar. O centro das narrativas passa a ser ocupado por memórias negras e indígenas, por histórias que durante séculos passaram por tentativas de silenciamento ou distorcidas pela historiografia oficial.


Museu do Recôncavo Wanderley Pinho

O Museu do Recôncavo leva o nome de Wanderley de Araújo Pinho (1890–1967), neto do escravocrata Barão de Cotegipe e político que se dedicou  à preservação da história da Bahia. No entanto, a visita ao antigo casarão e à fábrica do engenho é um convite a ir além da historiografia tradicional. O patrimônio não é apenas preservado, mas também ativado como ferramenta de reflexão, educação e reconexão com saberes ancestrais. 

Esse compromisso se expressa tanto na curadoria quanto na experiência do visitante. O acervo permanente reúne 260 peças históricas — sendo 141 delas restauradas recentemente. 

Ao percorrer suas exposições permanentes e temporárias, o público embarca em uma jornada pela história do Recôncavo Baiano — território fundamental na formação econômica, social e cultural da Bahia e do Brasil. Um território onde seguem vivas a resistência, a contribuição e as heranças culturais da diáspora africana  dos povos originários


Núcleos educativos

O percurso expositivo do museu é estruturado em cinco núcleos, além da Capela de Nossa Senhora da Conceição da Freguesia e do térreo destinado às exposições temporárias de longa duração.

A visita começa no núcleo histórico, com uma linha do tempo do Engenho Freguesia. Na sequência está o núcleo dos povos originários, com fotografias e vídeo-documentário que convidam ao reconhecimento das presenças indígenas. O núcleo dos povos escravizados traz documentos históricos, manuscritos do poema Os Escravos, de Castro Alves, e acesso à plataforma Slave Voyages, ampliando o entendimento sobre o tráfico transatlântico. 

Com mobiliários e objetos, o Núcleo Doméstico busca evidenciar os saberes, estratégias de resistência e o trabalho invisibilizado das mulheres escravizadas. O número da memória –  espaço incômodo e talvez dispensável por relembrar a dor – abriga a “Sala do Silêncio”, com objetos de tortura, propondo um espaço de recolhimento, reflexão e elaboração coletiva da memória.


Exposições temporárias

A exposição inaugural “Encruzilhada – Bahia África”, atualmente em cartaz, estabelece o tom dessa nova fase do museu. Ao reunir obras de 40 artistas africanos e grandes nomes da arte afro-brasileira, como Mestre Didi, Pierre Verger, Rubem Valentim e Alberto Pitta, a mostra propõe diálogos entre ancestralidade, arte contemporânea, espiritualidade, identidade e território.


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Autor(a):
Postado em:

26/01/2026

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