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21 de novembro de 2017

Bronx, um amor inexorável!

Por um mês o Bronx foi a minha nova morada. Há muito que dizer desse local para além do surgimento do Hip Hop.

Ao pensarmos nos dias atuais na famosa e glamurosa Nova Iorque nem podemos imaginar que nos anos 1970 ela enfrentava uma crise e um enorme abandono. Inserida em um contexto nacional de estagnação econômica, a metrópole lidava com taxas de criminalidade recorde e uma crise fiscal que quase fez declarar falência perante o governo federal em 1975.

Incêndios Criminosos: Esse tipo de ação era tão frequente que a frase “o Bronx está pegando fogo” se tornou um jargão. No entanto, a decadência impulsionava novos movimentos, tais como as cenas punk, disco, latina, e o surgimento do hip hop, tudo acontecendo ao mesmo tempo. O Bronx, que fica ao norte da cidade e é separado de Manhattan pelo rio Harlem, foi uma região que por muito tempo ficou esquecida pelo poder público. Nos anos 1970, o Bronx era quase inabitável. As altas taxas de desemprego e de pobreza alavancaram crimes e o uso de drogas. Porém, nos prédios devastados, abandonados e incendiados para que seus proprietários resgatassem o seguro imobiliário, o Bronx começou a emergir. A arte e a cultura por meio do graffiti e da música eram as formas de colorir o cotidiano daquele bairro. O modelo de habitação popular começou a ganhar uma estética própria.

O Apagão: A disco music era o gênero dominante, na vida noturna da cidade. Os DJs oriundos do Bronx começaram a trazer o funk e o soul para a ordem do dia. No ano de 1977, ocorreu um apagão em Nova Iorque que durou toda a madrugada do dia 13 de julho até o dia seguinte. A série “The Get Down”, (leia mais no artigo de Jô Karlson nas próximas páginas), com elementos factuais e fictícios narra o surgimento do gênero musical no Bronx dos anos 1970 e o blecaute é retratado como um ponto de inflexão na trajetória de um grupo de amigos que ambicionam se tornarem Djs e MCs. Uma série próxima da realidade. Antes do apagão, alguns DJs já eram reconhecidos na cena cultural, tais como: Kool Herc, Afrika Bambaata & The SoulSonic Force (depois chamados de Zulu Nation), Grandmaster Flash & The Furious Five, Disco Wiz e Grandmaster Caz  e o Funky Four Plus One. A proliferação de DJs depois daquele dia foi nítida, segundo Grandmaster Caz, do Bronx, que afirma em entrevista à “Slate”, que os furtos “fizeram surgir mil novos DJs”. Essa narrativa é apresenta por outros personagens envolvidos no surgimento do hip hop.

A cultura urbana de Nova Iorque, a crise de gestão da cidade, a mistura racial do Bronx e os problemas sociais do bairro de população expressivamente afro latina formavam um ambiente propicio para o surgimento de diversos talentos. Pessoas que encontravam na arte e na cultura uma forma de sobrevivência. Ao entrevistar moradores dessa região era possível ver sem seus olhares a paixão pelo local de origem. Certa vez, um amigo brasileiro me perguntou se o Bronx era parecido com as periferias do Brasil. Não é nada pare­cido. O Bronx tem estrutura. As periferias do Brasil não são lugares para um cidadão viver de forma digna com esgoto a céu aberto e sem saneamento básico. Em comparação com o Brasil, a única coisa que pode ser comparada é à distância desses bairros populares com o centro da cidade. Quem mora em Salvador é como se o Bronx ficasse em Águas Claras, ou São Paulo seria na Zona Leste e em Porto Alegre na Restinga. O Bronx é um bairro acolhedor, multicultural e continua sendo o destino de imigrantes. Muitos latinos e caribenhos vivem nessa região e o que atrai mais pessoas para esse local são os imóveis a preços acessíveis juntamente com a queda da criminalidade.

As Gangues: É preciso compreender o contexto social e político da região do Bronx para entender o surgimento de diversas gangues. O bairro foi se degradando pela desindustrialização e falta de investimento do governo. Com isso, o desemprego e a violência começaram a aumentar. Em busca de solidariedade, segurança e até mesmo diversão, os jovens montaram as gangues. A história das gangues do Bronx serviu de inspiração para a criação de vários romances e filmes. As gangues nos mostram o descaso do governo e a adaptabilidade da sociedade diante de circunstâncias externas. Por meio da arte é possível uma transformação. Um exemplo dessa afirmação é o DJ Afrika Bambaataa, que transformou a gangue Black Spades na primeira crew de hip hop, a Universal Zulu Nation. Essa paz teria um efeito cascata cultural em todo o mundo. Um ativismo político foi instalado em muitas dessas gangues, pois eles estavam protegendo seu bairro. Juntaram essa energia e transformaram em algo positivo de diferentes maneiras para contribuir para um bem coletivo.

 

Relato de Camila de Moraes, jornalista e cineasta de Porto Alegre, editora do blog Palavras Enegrecidas e da revista Acho Digno. O projeto Identidades Transatlânticas, da revista Acho Digno, se propôs a conhecer um pouco da cultura e arte de três locais, são eles: Bronx, Brooklyn e Harlem. No “Olhar Estrangeiro”, nos dividimos em três para que cada uma possa escrever um pouco sobre esses lugares. A jornalista paulista, Cristiane Guterres, de passeio em Nova Iorque fez do Brooklyn o seu habitar natural. E a jornalista mineira, Elis Clementino, que vive na cidade e trabalha no Harlem, nos revela encantos desse mundo negro que vive atuante em cada parte por qual circulamos.

 

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