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17 de novembro de 2017

Brooklyn que te quero negro

Eu estava hospedada na casa do meu amigo Toni e ele me disse: “Você quer ver gente preta no Brooklyn? Vá até a Flatbush Avenue”. Durante a viagem, a cada estação o vagão foi enegrecendo.

A minha primeira visita ao distrito do Brooklyn foi numa noite de segunda-feira daquele especial mês de agosto de 2016. Fui dançar ao som do músico e Dj paulista Eduardo Brechó numa casa de shows chamada Benge que há 14 anos agita as noites do bairro. Brechó, que fazia uma série de apresentações na cidade de Nova Iorque, me levou para um curto passeio aos arredores de Williansburg e me contou que aquele era um dos pedaços mais hipster com boutiques descoladas, grafites tomando conta do visual, com restaurantes e bares badalados.

Naquele primeiro passeio já me encantei pela região. Voltei na mesma semana e desta vez atravessei a ponte do Brooklyn a pé. Imponente e carregando os seus mais de 130 anos de história, a ponte do Brooklyn marca a chegada ao distrito. Quando foi inaugurada em 1883, depois de 14 anos de construção, o Brooklyn era a terceira maior cidade dos Estados Unidos (EUA).  De terceira maior cidade para terceira maior região, o status mudou, mas ainda é a maior concentração populacional de Nova Iorque com 2,6 milhões de habitantes.

Pra entender o que é o Brooklyn em tamanho e diversidade cultural preciso explicar que ele não é mais um município, mas sim um Borough, essa palavra não tem uma tradução em português, mas pode se assemelhar ao que chamamos de distrito aqui no Brasil, nem um bairro, nem um município. Entre os mais de dois milhões de habitantes temos judeus ortodoxos, descendentes de russos, italianos e africanos.

Hoje, um dos locais mais queridinhos da cidade, concentra várias vilas, cada uma com as características culturais dos povos que nela vivem. Willisburg é uma destas áreas, encantadora por sinal, mas eu vim aqui pra ver gente com grande concentração de melanina no corpo, 35% dos moradores do Brooklyn se auto declaram negros ou de origem africana e eles tem um lugar certo no Borough, a área de Flatbush.

Já num outro dia peguei o trem na Times Square, avenida mais famosa de Nova Iorque. O meu destino era o cruzamento da avenida Flatbush com a Church. Eu estava hospedada na casa do meu amigo Toni e ele me disse: “Você quer ver gente preta no Brooklyn? Vá até a Flatbush Avenue”. Segui o seu conselho. Durante a viagem, a cada estação o vagão foi enegrecendo. Enquanto na estação da Times Square a maioria das pessoas no trem eram brancas e falavam variados idiomas. Turistas que se locomoviam pelos pontos da cidade, quanto mais me aproximava do meu destino o vagão ia ficando com mais pessoas negras. Senti-me em casa, com os meus e encantada. Me senti como se estivesse em um filme do Spike Lee. Mais de uma hora andando pelo bairro, não vi nenhum branco. Negros rostos, negros corpos, negras roupas, negra cultura. Estava em um mundo no qual não queria mais sair. Enfim, eu cheguei ao lado negro do Brooklyn.

É claro que este lado da cidade não tem o glamour de Manhattan, mas tem a essência da África. Ouvir música africana pelas ruas e sentir a presença dos imigrantes é muito forte nesta região. É muito comum ver mulheres negras de turbantes empurrando carrinhos de bebe pelas ruas, as lojas vendem produtos africanos e estampam com orgulho a bandeira de algum país do continente negro.

A cultura hip hop aqui também é muito forte. A música está no som dos carros, há vestimentas típicas da cultura no movimento hip hop. Também existem muitos aspirantes à jogadores de basquete, pois em cada esquina há uma quadra e vários meninos e meninas tentando acertar um arremesso.

Porém, não diferente do que acontece no Harlem, a especulação imobiliária chegou ao lado de cá do Brooklyn e com isso o aumento dos preços dos aluguéis que expulsa os moradores negros da região. Mas também há aqueles moradores que se organizam em grupos para permanecer resistindo e vivendo no distrito. Esse é o Brooklyn negro que te quero, que vejo nos filmes e tive a oportunidade de vivenciar por alguns dias.

Relato de Cris Guterres, publicado originalmente na revista eletrônica Acho Digno

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