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28 de fevereiro de 2018

Capoeira Centenária

Em 1918, Mestre Bimba iniciava sua metodologia de formação e memória ao levar o jogo de corpos para recintos fechados

Não se sabia bem quantos estavam à espreita e quais golpes sairiam daquela visita que poucos faziam em um dia de domingo no alto do Nordeste de Amaralina. Era sabido que se tratava de uma das etapas mais importantes e o avaliado precisava estar apto para aquela que na teoria e na prática chamava-se Emboscada. Esse era o nome que Mestre Bimba dava a uma das etapas que tornaria seus discípulos especialistas na mandinga que o fez referente e referência, a Capoeira Regional.

Em 1918, quando em Salvador ainda não existiam academias ou espaços onde se podia treinar a capoeira, sendo ela limitada às esquinas e portas e armazéns, Manoel dos Reis Machado, com apenas 18 anos, começou a criar a metodologia de ensino de um jogo bom para o físico e para a mente, como ele gostava de dizer. “O projeto da capoeira regional nasceu da cabeça de meu pai cem anos atrás, quando ele começou a ensinar, mas somente em 1928 ele conseguiu institucionalizá-la”, conta seu filho, Manoel Nascimento Machado, o Mestre Nenel.

Ao som de idalinas, entre bênçãos, queixadas e vingativas, Bimba criou uma filosofia de vida pautada em saberes e comportamentos que permeiam a troca de energias em um jogo de corpos. “Sua postura de educador era inegável. Lembro que todo aluno novo que chegava, ele fazia questão de pegar o aluno pelas mãos e passar todo fundamento, que inicia com a ginga”, comenta mestre Chapéu Vermelho, 65 anos, que até hoje frequenta as rodas da Fundação Mestre Bimba (FUMEB) e completa o seleto grupo de antigos discípulos do criador da capoeira regional.

Nenel reúne aos sábados discípulos, dos mais novos aos mais velhos, para manter vivo os ensinamentos de seu pai. O caminho continua sendo o Pelourinho, local onde Mestre Bimba manteve o Centro de Cultura Física Regional na Bahia. No imóvel da Rua das Laranjeiras, ele ensinava seu método, organizado em variadas partes, entre elas, sequência, cintura desprezada, toques de berimbau e roda.

Elementos da capoeira tradicional da época aliados ao batuque, uma espécie de luta-livre de origem africana – do qual seu pai era um grande lutador – foram os ingredientes que fizeram Bimba criar um estilo de capoeira que permitisse o jogo vadio e também a defesa pessoal, inclusive contra armas. O centro de treinamento do Mestre Bimba aceitava todo interessado em praticar sua metodologia. A única regra imposta por ele era de que essa pessoa deveria estar estudando ou trabalhando.

“No meu caso, eu era estudante, mas para minha mãe eu fazia um curso de datilografia, quando na verdade eu estava treinando com Mestre Bimba”, revela Chapéu Vermelho, que até hoje não sabe digitar sem olhar, porém orgulhoso diz: “O diploma de capoeira com o Mestre é uma formatura que poucos podem dizer que tem, ao contrário da datilografia”.

No aço do berimbau

Com a incorporação de rituais e métodos específicos para a realização da Formatura e Especialização no Curso de Capoeira Regional criado por Bimba, a brincadeira do corpo foi ganhando contornos mais institucionalizados, sobretudo percorrendo caminhos contrários à criminalização das leis e preconceitos vigentes. O caminho percorrido após a criação do Centro no Pelourinho e o pioneirismo do ensino da capoeira em local fechado são alguns dos destaques do livro Mestre Bimba Corpo de Mandinga (2002), do jornalista e discípulo do mestre, Muniz Sodré.

“Naquela época, ninguém acreditava que a capoeira seria um instrumento educativo. Passados cem anos, a capoeira regional continua como antigamente, mas as reações a ela mudaram muito”, conclui mestre Nenel. Dos 13 filhos de Bimba (sete homens e seis mulheres), apenas três chegaram ao grau máximo da Capoeira Regional: Mestre Nenel, Mestre Dermeval “Formiga” (in memorian) e Mestre Luís.

Embora, a maior parte da vida de Bimba tenha sido dedicada a plantar a semente da Capoeira Regional na Bahia e no Brasil, a responsabilidade por manter o legado aconteceu de maneira espontânea. “Ele não deixou declarado quem da família iria transmitir seus ensinamentos. O destino foi que nos empurrou para ser e viver da capoeira” resume Nenel.

Quando mestre Bimba saiu de Salvador rumo a Goiânia, no ano de 1973, levou consigo, além da decepção mediante a desvalorização da capoeira regional por parte das autoridades e da burguesia da época, todos os seus filhos. “Foi um momento muito ruim para todos nós, pois deixamos tudo que conhecíamos, nossa terra, na esperança de encontrar o que nos haviam prometido, o que não ocorreu”, relembra Marinalva Nascimento Machado, 59 anos.

Coração que bate mais forte

Passado um ano desde que havia chegado a Goiânia, Mestre Bimba faleceu no dia 05 de fevereiro, vítima de um infarto fulminante. Seis anos depois, após iniciativa de seus discípulos, o corpo de Bimba foi transferido para Salvador e atualmente se encontra depositado no ossuário da Ordem Terceira do Carmo, no Centro Histórico.

“Meu pai colocou a capoeira onde ela está hoje. Até hoje o admiro muito por isso, pela sua capacidade de reunir a todos independente da classe social e da cor da pele”, enfatiza Marinalva.

A liturgia que envolve a capoeira regional, e quiçá sustente seu caminhar, tornou Manoel dos Reis Machado o pai do jogo de corpos e a sociedade o reconheceu como Mestre. Para seus filhos e discípulos diretos e indiretos, a visão de Bimba foi além de seu tempo e não traçou fronteiras geográficas, nem sociais e nem raciais.

Cem anos se passaram desde que a Capoeira Regional foi pensada e sua prática segue vigente em Salvador e em diversas partes do mundo. Pode ser que o trajeto percorrido não satisfaça completamente ao seu criador, porém seu legado permanece: ô sim, sim sim / ô não, não, não.

Texto da jornalista e anfitriã em nossa rede, Juliana Dias, publicado originalmente no site Irohin.

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