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23 de dezembro de 2017

Celebrar o sentido comum

Celebrações de final de ano são a oportunidade para agradecer os frutos colhidos entre aqueles com quem reconhecemos um sentido comum. Na tradição africana, a celebração chama-se Kwanzaa.

A palavra deriva da expressão “matunda ya kwanza”, que significa “primeiros frutos” em swahili, a língua original mais falada na África. É a época em que se celebra a fartura da colheita, quando árvores estão carregadas e a natureza em sua mais plena abundância.

É neste momento, portanto, que voltamos à ‘casa’, nos reunimos em torno da mesa farta, para compartilhar com a família e amigos o sentido comum desta plenitude. Relembrar as alegrias e conquistas, dividir as angústias vencidas e, sobretudo, semear novas intenções para o ciclo seguinte. É a celebração do valores comuns, da união entre aqueles que se reconhecem como comunidade.

Estes valores fazem parte dos rituais e simbologias do Kwanzaa, centrado em sete princípios ligados à família, à comunidade, e à preservação da cultura tradicional na diáspora. A celebração dura sete dias, entre 26 de dezembro e 1 de janeiro. A cada dia, rituais e reflexões são realizados em família sobre os valores e princípios da celebração:

Umoja (união) – Estar unido como família, comunidade e povo;

Kujichagulia (auto-determinação) – Responsabilidade em relação a seu próprio futuro, como indivíduo e coletivo;

Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade) – Sentido de construção colaborativa, de responsabilidade diária, conjunta, sobre as decisões e caminhos da comunidade e o entendimento de que os problemas e questões podem ser resolvidos numa perspectiva de grupo;

Ujamaa (economia cooperativa) – A construção e os ganhos da comunidade através de suas próprias atividades, favorecendo e estimulando a circulação interna dos recursos que promovam o bem-estar e crescimento conjunto

Nia (propósito) – O objetivo, a finalidade maior do trabalho em grupo visando construir o sentido de comunidade, reatar laços e expandir a cultura africana;

Kuumba (criatividade) – Usar novas idéias para criar uma comunidade mais bonita, mais bem-sucedida para as gerações que vêm à frente;

Imani (fé) – Honrar os ancestrais, as tradições e os líderes africanos para celebrar os triunfos do passado sobre as adversidades, e evocar com confiança a intuição

A cada dia, o líder da celebração convida os participantes a se reunirem no local e realiza um cumprimento relacionado ao princípio refletido naquele dia. Há recitais, música, preces, reflexões ou compartilhamento de histórias relacionadas ao sentido de cada um dos princípios norteadores da celebração – e o mais novo presente na reunião acende uma vela ao final do encontro.

Todos o  rito tem um forte simbolismo. Ao todo, são sete velas das cores pan-africanistas (verde, preta e vermelha, chamadas de Mishumaa Saba), que representam as virtudes e princípios da celebração. As velas estão dispostas em um candelabro (kinara) e sobre uma esteira (Mkeka), que representa os fios ancestrais que constituem uma teia de fundação de toda a comunidade.

Na mesa (mazao), também ficam dispostas frutas, verduras e plantas, para destacar a fartura, e uma taça (Kikombe cha Umoja) , para simbolizar a unidade da família e da comunidade. Também há livros de histórias, para reverenciar a tradição, e espigas de milho (muhindi), que simbolizam a continuidade do povo.  As celebrações do Kwanzaa estão recheadas de simbolismos especiais.

E, como na tradição cristã, também há a troca de presentes! Ela geralmente ocorre ao final das celebrações de cada dia ou também após o sétimo dia de reuniões. A grande celebração, entretanto, é na noite do dia 31 de dezembro, com um banquete para honrar a fartura da tradição ancestral, além de uma festa com música e cantos da tradição cultural africana.

No dia seguinte, o primeiro do ano e o último da celebração, é um momento de reflexão individual e recolhimento, além do momento da prece conjunta.  As pessoas se perguntam: “quem sou eu?” “sou realmente quem digo que sou?” e “sou tudo o que posso ser?”.  A última vela do Kinara é acesa e então todas as velas são apagadas sinalizando o fim do feriado, e o começo de uma nova semeadura de boas intenções para um ano de fatura.

História

Somente há dois mil anos, a celebração se consolidou a partir dos símbolos ligados à cultura cristã. Mas  para a tradição africana, prevaleceu a celebração da fartura para a comunidade. Um momento de comemoração pelo resultado do trabalho coletivo, pela vitória sobre ameaças como a fome e guerras.

Segundo o site Somos Todos dos Um, a festa ainda é realizada em algumas regiões e povos tradicionais expressivos: “Estas celebrações eram comuns nos tempos antigos, mas também existem hoje, cultivadas por imensos grupos sociais, como os zulus, tanto quanto por pequenos agrupamentos, como os matabelos, os thonga e os lovedus, todos do sudeste do continente africano”.

Apesar da tradição, a retomada dos valores desta celebração se deu somente a partir da década de 60, após um período de intensos protestos e violentas repressões contra a população afro-americana nos Estados Unidos.  A Kwanzaa foi celebrada pela primeira vez de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro de 1967. O líder Martin Luther King seria assassinado um ano mais tarde e os negros americanos brigavam pelo direito de voto.

A proposta de criar um feriado “pan-africano” é atribuída a um professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga. Hoje, a celebração é um marco cultural em parte da comunidade negra norte-americana e também tem celebrações no Brasil, especialmente em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde anualmente ocorre um encontro com adeptos da comemoração.

Para Makini Olouchi, uma das organizadoras da festividade em Salvador, “Celebrar a Kwanzaa no Brasil, significa viver nossa africanidade numa perspectiva panafricanista. É manter-se conectado com toda ancestralidade africana do mundo e manter aceso o espirito de celebração pelas boas colheitas que tem sido feitas, apesar das adversidades”.

#VivaDiaspora

Inspirado no site Correio Nagô