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25 de julho de 2018

Coragem é coisa de Mulher

Neste Dia da Mulher Negra, homenageamos uma anfitriã especial, Neia, que carrega tatuada nas costas a frase de inspiração para muitas outras mulheres.

Entre as muitas marcas que os anos deixaram, aos 57 anos Neia carrega tatuada nas costas seu lema de uma vida inspiradora: “Coragem é Coisa de Mulher”, diz a frase tatuada entre o mapa da Ilha Grande, local que escolheu para morar, criar os filhos e construir seu espaço e legado.

Nildineia Sigmaringa é anfitriã reconhecida diversas vezes como uma das melhores da ilha, onde chegou pela primeira vez ainda na década de 70, para acampar com um amigo. Após idas e vindas, casou-se na praia da Vila do Abraão, onde anos depois construiria o Hostel Flores e Vida, um espaço acolhedor, de  trocas entre hóspedes e anfitriã e também de valorização e preservação da natureza.

O dia 25 de Julho é dedicado internacionalmente para celebrar mulheres de coragem e inspiração, que marcaram seus nomes na História. No Brasil, é marcado pela memória de Teresa de Benguela, uma liderança da resistência quilombola do Mato Grosso, no século XVIII. Hoje, a Diaspora.Black homenageia todas as mulheres que nos inspiram a ir mais longe  na figura desta anfitriã especial.

“As pessoas não respeitam as mulheres. As pessoas não gostam de nos ver  conseguindo chegar onde chegamos”, conta Neia. “Consegui comprar cada tijolo, com minhas mãos. Na ilha somos três mulheres negras proprietárias, enfrentando discriminação. Os funcionários não me obedecem, os homens que contrato para fazer  obras no hostel não gostam. Mas se a gente levanta para fazer algo, eles não querem. Não podemos ter espaços, boas ideias, iniciativas aqui”.

Já são mais de 15 anos de lutas por afirmação neste espaço. Seu primeiro camping, na década de 90, foi alvo de campanhas difamatórias e foi demolido por ordem da prefeitura local. “Quando acabou o presídio, os comerciantes, empresários, donos de terra achavam que aqui seria como Fernando de Noronha, uma área elitizada. E começaram a fazer campanha para acabar com campings, que eles achavam que atraíam mochileiros, negros e favelados. Demoliram meu espaço na véspera do carnaval, cheio de hóspedes e ficamos eu e meus filhos pequenos na rua”.

A empresária processou os responsáveis pela ação, venceu a causa e optou por sair da ilha. Voltou ao Rio de Janeiro, onde os filhos cresceram. Foram dez anos longe do local que ela adotou como casa, seu sonho e razão de viver. O período, foi um dos mais difíceis de sua vida, quando Neia enfrentou uma grave depressão e chegou a ser hospitalizada.

No período, ela conta que sonhava muitas vezes com a Ilha e com uma casa na mesma rua onde antes ficava seu hostel.  Mulher de fé e forte devoção, mas sem uma religião definida, ela ouvia nos sonhos o chamado de volta para a Ilha Grande: “Eu ia morrer, mas me deixaram voltar por que tinha algo a fazer aqui ainda. Ouvia: ‘você já chorou muito, sofreu muito, mas você vai sorrir e fazer muita gente feliz também”.

Foi o que ela fez. Ao retornar para a Ilha, construiu o primeiro hostel, simples, com uma casa de estuque e móveis e decoração feito com materiais reciclados, chamando atenção dos hóspedes para a importância da preservação ambiental.  “O hostel foi imitado por vários outros, precisei mudar de nome várias vezes, mas recebia muitos turistas, elogios e fui reconhecida como a melhor anfitriã da Ilha”, diz.

O título foi atribuído não só pelo carinho e cuidado com que tratava os hóspedes, ou pela qualidade do espaço. Foram muitas as iniciativas e empreendimentos que ela liderou no hostel: desde a produção artesanal de cachaça (chamada de Gabriela, Cravo e Canela), até a oferta de massagem terapêutica, atendendo a hóspedes de diversas pousadas – o que incomodou e a fez ser alvo de críticas e preconceitos machistas dos estabelecimentos, antes de ser também copiada.”Não deixo subirem em cima de mim. Tomo iniciativa de fazer e faço.”

Foi sua ideia de ensinar às crianças a reciclar e reaproveitar materiais da Ilha, que fica numa área de proteção ambiental. Ela mesma restaura móveis, eletrodomésticos, plásticos e outros materiais “que ficam a vida toda no solo, no mar e matam a vida que tem lá”. Tudo vira item de decoração e o processo de restauro e reciclagem é ensinado e compartilhado com os hóspedes, para que cuidem do lixo que geram no hostel, e também em sua página na internet para outras pessoas replicarem.

“É um privilégio de morar no lugar como esse, lindo, um patrimônio da humanidade. Não precisa ser cientista para saber que um dia isso vai acabar. Se a gente não cuidar desse lugar, ele acaba. Restauro móveis, madeira que as pessoas jogam fora, mas não existe “fora” – nem na Ilha, nem no planeta.  Acho que é o meu dever. Queria que minhas netas e bisnetas tenham o prazer de desfrutar desse lugar. E resolvi fazer a minha parte”, conta.

Aos 57 anos, ela tem duas netas que moram no Rio de Janeiro. Sua filha estuda para se formar em Direito e o filho é Rapper. Nesse tempo, ela já voou, fez cachaça artesanal, está aprendendo violão para tocar para crianças e idosos em hospitais e asilos, e também, está escrevendo um livro sobre sua vida.

“Sou feliz, sou querida. Mas às vezes tem uma tristeza. Vou para cachoeira, choro. Vou pra praia, choro. Não sou forte, sou de fé. Essa é minha vida, amores, sabores, dissabores… mas  estou sempre sorrindo, mostrando que estou de pé. Quero deixar um legado bom para minhas netas. Quero que elas sintam força e coragem quando se tornarem adultas. Para quem tem fé, a vida nunca tem fim”.