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22 de fevereiro de 2018

Corpo negro no mundo

Após percorrer 23 países, Guilherme Dias conta como é ser um negro viajante e a solidão no turismo

Quando decidi tirar um sabático para viajar pelo mundo não imaginava fazer o recorte racial. Comecei a juntar dinheiro pretendendo mochilar e passei a acompanhar diversos blogueiros que estavam fazendo o mesmo. O mundo ficou pequeno, as fronteiras diminuíram, ficou mais barato viajar e tem um monte de gente vivendo como viajante. Dos blogueiros que conheci nenhum era negro. A pessoa que mais me identifiquei nesse momento foi Kivia Mendonça, do Kiviagem, mulher, de família simples, jornalista, que economizou dinheiro com seu próprio trabalho e viajava de carona, ficando na casa das pessoas e o mais importante: tentando conhecer os lugares de fato, sem glamourizar as viagens como um consumo supérfluo. Ela ajudou a me inspirar e a perceber que minha ideia não era maluca. Eu também podia.

Dinheiro economizado, passagens, mochila e seguro de viagem comprados, eu parti. Percorri 23 países em nove meses pelos cinco continentes. Uma viagem dessas deve ser muito cara e é impossível para um trabalhador comum fazer, certo? Errado. O valor que eu gastei foi o mesmo que eu usaria para comprar um carro popular zero quilômetro. Quantas pessoas que você conhece têm carro? Várias. Todas elas economizaram e investiram tempo e dinheiro para adquiri-lo. Foi o mesmo com essa viagem. Não estou dizendo que é fácil e que todas as pessoas conseguem fazer isso. Infelizmente não. Mas estou dizendo que é possível.

Tirar um sabático é muito distante da realidade dos negros brasileiros. Mas quando mudei para São Paulo percebi que a maior parte dos amigos brancos classe média já tinha feito um intercâmbio. Isso é muito comum. E muitos deles viajam quase todas as férias para o exterior. É algo normal para esses amigos. Por que não poderia ser para mim também?

Afinal, sempre gostei de viajar. Isso é algo que nasce na infância quando eu viajava com a minha avó para visitar familiares pelo interior do Mato Grosso do Sul. Graduei-me em Jornalismo e fui procurando meu lugar ao sol na profissão, enquanto fazia pequenas viagens. Sou, no entanto, a única pessoa da minha família vista como alguém que ascendeu socialmente. Meus familiares continuam sendo humildes e precisando de coisas básicas. Eu sou uma das pessoas que dá certo suporte a eles. Decidir viajar foi um ato “egoísta” de realizar um sonho meu. Mas precisava fazê-lo. E assim parti.

A viagem foi me gerando um acumulado de sentimentos e sensações que eu fui rascunhando em bloquinhos de anotações. Jornalista, eu não queria registrar a viagem em blogs, redes sociais ou ter que escrever. Estava de férias prolongadas. Mas a escrita me procurava. As letras que iam surgindo ao longo desse processo viraram contos e o livro Dias pela Estrada. Os lançamentos no Rio de Janeiro, São Paulo, Campo Grande, San Pedro de Atacama (Chile) e Salvador foram oportunidades de dividir as experiências e contar como foi viajar.

Em Salvador, onde o lançamento ocorreu em 30 de janeiro de 2018, o bate-papo foi sobre como é ser um corpo negro pelo mundo. Cerca de 50 pessoas, a maior parte negra, foram à Katuka Africanidades, uma loja de roupas afro no Pelourinho para participar do evento. A conversa foi intermediada pelo fundador da aceleradora Vale do Dendê, Paulo Rogério Nunes. Negro, ele tinha viajado para Londres recentemente e notou que era o único negro do voo.

Paulo lembrou sobre a solidão do negro no turismo. Em muitas vezes somos os únicos a estarem em restaurantes, monumentos, museus e atrações turísticas bastante visitadas pelos brancos. Sempre que notava isso gerava um sentimento de indignação e questionamentos do porquê tão poucos negros viajam. Esse sentimento começou a me incomodar, mas não consegui digerir isso totalmente durante a viagem. Fiz um textão no Facebook falando dos casos de racismo pelos quais já passei, mas não consegui escrever sobre isso no livro, por exemplo.

Só com a viagem terminada, já vivendo em San Pedro de Atacama, Chile, onde fui morar por uma temporada para juntar grana para continuar na estrada é que consegui reunir os casos de racismo pelo quais passei viajando e fiz o texto Como ser um corpo negro pelo mundo, que foi publicado pelo Alma Preta.

“Senti na pele que ser um negro viajante tem desafios que os brancos nem imaginam. Durante a primeira parte da minha viagem, fui abordado por policiais nas ruas de Veneza e Jerusalém. Em diferentes fronteiras por onde passei, também fui revistado e bastante questionado. Toda vez que ia de um país a outro (e foram 23 até agora) temia pelos processos que iria passar. Na Austrália, fui escolhido ‘aleatoriamente’ para um teste anti-bomba. Essas experiências foram marcantes na viagem. Percebi o quanto minha presença era ‘diferente’ em alguns lugares. Em alguns restaurantes mais turísticos, só brancos em volta. Talvez seja difícil para quem não é negro entender ou captar todas as subjetividades desse relato. (…) Nós negros podemos e devemos sonhar em ser viajantes, nômades digitais, turistas e frequentadores de lugares que não foram reservados para nós, mas que também são nossos”.

Postei o texto no grupo Mochileiros do Facebook, que reúne milhares de pessoas para discutir viagens. Os temas são diversos: destinos, experiências, dicas, pedidos de ajuda, histórias de superação. Muitas mulheres colocam os seus relatos de viajar solas, mas nunca tinha visto a discussão de negritude presente ali.

O texto brocou o grupo. Mil curtidas em poucas horas, diversos comentários. Os brancos queriam dizer que eu não era negro, que tudo não passava de mimi, que eu era o culpado pelas revistas, que devia me comportar de maneira estranha, que me vitimizava, que eles também sofriam revistas, etc. Os usuários começaram a se ofender.  Uma ofensa racista foi feita por um deles. Os comentários foram bloqueados. Os negros, ah os negros (obrigado irmãos) disseram que se identificavam, que tinham curiosidade de saber mais sobre o tema, agradeceram por eu escrever sobre, contaram suas histórias, me adicionaram, iniciaram conversas, amizades… Como é bom se reconhecer, né?

E esse processo de reconhecimento passa por visitar lugares em que nos sentimos representados. Na música, na comida, no jeito de andar, de falar, na história, na afetividade e nas memórias. Quantos lugares de cultura negra você conhece?Quantos você já priorizou visitar? Quantos negócios de pessoas negras você pautou consumir em detrimento de comércios de pessoas brancas?

Pera, calma, você nunca tinha parado para pensar nisso? Mas turismo é escolha, é comércio, é consumo, é cultura, é dinheiro que circula, é conhecimento. Nessa matéria da Revista Trip indico 30 lugares de cultura negra no Brasil que você precisa conhecer. Nessa outra, questiono por que os negros viajam menos. E tento dar respostas e caminhos.

Escolher mais lugares negros, de cultura negra, consumir de negócios de pessoas pretas é uma escolha e devemos priorizá-las. Por mais pretos viajando, por mais viagens pretas, por mais valorização da cultura negra e muitas estradas a serem percorridas por todos nós!

Texto publicado originalmente no blog Dias pela Estrada

#VivaDiaspora