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28 de julho de 2017

Cultura negra viva de Paraty

Neste fim de semana, Paraty recebe milhares de visitantes interessados em viajar pela literatura – é a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Após duras críticas quanto ao posicionamento e visão elitista sobre a literatura, com protestos e acusações de racismo e discriminação quanto à cultura local nativa, a feira neste ano propôs uma programação mais aberta para a produção literária negra, tendo autores consagrados que pautam a questão racial nas principais mesas do evento. A poucos quilômetros do centro da cidade, porém, um quilombo preserva viva a memória e cultura local alheias ao movimento da elite intelectual.

A escolha do homenageado, Lima Barreto (1881-1922), já sinaliza a abertura da curadoria para escritores que usaram das palavras para questionar o status quo, a estrutura e os privilégios de classes burguesas no País. Carioca, suburbano, Barreto utilizou a ironia  como principal ferramenta em suas crônicas contra os costumes da sociedade brasileira, criticando de forma contundente a elite intelectual branca, seus preconceitos e sua visão estreita sobre uma ‘erudição literária’. A mesma elite hoje o enaltece com a homenagem na Flip, com relançamento de suas obras e debates sobre sua importância, em um gesto que o próprio autor poderia enxergar, com desdém, como uma mea culpa hipócrita.

A programação da Festa também dá destaque à Conceição Evaristo, uma das principais autoras brasileiras contemporâneas, ganhadora do Prêmio Jabuti no último ano pelo livro ‘Olhos D’água’. A autora relata em seus contos e livros sua ‘escrevivência’, conceito em que traduz a escrita literária a partir da vivência na pele das situações de racismo e discriminação em sua trajetória como doméstica, em Belo Horizonte, até a conclusão do doutorado, no Rio, e a publicação dos seus primeiros romances, na década de 90.

Outro destaque da programação é a participação da Editora Malê, responsável pela publicação do último livro de Conceição Evaristo. Os ‘Encontros Malês‘, evento realizado pela editora na programação paralela da Flip, terá lançamento de novos livros e debates sobre autores e narrativas negras, como forma de ampliar a visibilidade à produção literária pautada nas vivências da população afrobrasileira. Também participa da festa o ator, diretor e escritor Lázaro Ramos, que divulga seu livro de relatos autobiográficos “Na Minha Pele”.

Mesmo com o reconhecimento da Flip à contribuição negra na narrativa histórica e cultural brasileira, a visita a Paraty pode render mais do que boas citações e metáforas nos livros e debates das mesas. A poucos quilômetros da cidade, o Quilombo Campinho da Independência é um exemplo de resistência e preservação da memória ancestral brasileira, visíveis nas construções de taipa, na arquitetura colonial das propriedades abandonadas pelos senhores da terra após o declínio da produção agrícola e a abolição oficial da escravidão.

São sete gerações quilombolas, descendentes das famílias remanescentes das propriedades e outras que se estabeleceram no local com o fim do trabalho forçado. A região foi alvo de especulação e disputa de terra por muito tempo, em função do crescimento do turismo. Mas a comunidade resistiu e conseguiu, no final da década de 90, o título da propriedade. Mas mais difícil do que o reconhecimento da terra, foi o enfrentamento ao racismo e a construção da auto estima da população, que era alvo de discriminação dos moradores de Paraty.

A cultura tradicional, como o jongo, o samba, e a culinária, foram as ferramentas de afirmação, com esforço dos moradores mais antigos para valorizar a herança e repassar os valores aos mais novos. Hoje, o restaurante local é um dos pontos de referência para o turismo de Paraty, além da loja de artesanato que conta, por meio da arte, um pouco da história local de resistência e afirmação da comunidade. A visitação é gratuita e uma dica imperdível para quem quer ir além das leituras oficiais sobre a cultura negra brasileira.

#VivaDiaspora

 

Local: Rodovia BR 101 (Rio-Santos), Km 584 (a entrada fica na frente do Radar)

Horário de funcionamento:

Restaurante: de terça-feira a domingo, das 12h00 às 17h00.
Loja de Artesanato: todos os dias, das 09h00 às 17h00. 

 

3 thoughts on “Cultura negra viva de Paraty

  • na 5 de agosto de 2017

    Gostei do conteúdo, parabéns um forte abraço, e bom fim de semana!

    • carloshumberto
      na 13 de agosto de 2017

      Obrigado pelo comentário Marcelo!

  • carloshumberto
    na 13 de agosto de 2017

    Obrigado pelo comentário Marcelo!

Fechado para comentários.