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De casa e coração abertos

Inteligente, sensível e comunicativa, Beatriz Souza conversou sobre viagens, racismo e como é ser uma anfitriã pela Diaspora.Black

Caminhando pelo autoconhecimento

Aos 23 anos, Bia viajou por Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte – sozinha pela primeira vez na vida. Seu objetivo, após o fim de um longo relacionamento, era se conhecer melhor, se descobrir, se libertar. Só que, depois de se despedir de sua mãe no aeroporto, a ficha caiu e bateu o desespero: ela passaria 17 dias completamente sozinha! ? Chegando ao Rio Grande do Norte, entrou na fila atrás de uma família para comprar um salgado. Enquanto a menina se esgoelava de fome, a mãe arrancava os cabelos e o pai insistia para irem embora, Bia descobriu o prazer de estar sozinha. E aproveitou cada segundo da experiência. “A viagem foi incrível: descobri minhas limitações e voltei muito mais segura de mim mesma, confiante de que poderia ir para onde bem entendesse e fazer o que quisesse”.


Neta de uma mulher que nasceu do ventre livre, filha de uma baiana com um paulistano, Beatriz Souza cresceu em São Paulo. Começou a estudar inglês aos 15 anos, pois sua mãe permutava faxinas por aulas com um professor particular. Mais tarde, precisou fazer uma viagem para a China a trabalho, o que se revelaria outro profundo processo de autoconhecimento e autoafirmação.

Bia afirma que foram suas viagens anteriores que a prepararam para esse desafio, pois se deparou com várias questões que já tinham sido enfrentadas antes: o complexo de vira-lata do brasileiro, o corpo da mulher negra que não é bem-vindo em determinados espaços… “Eu passei de uma pessoa que não entrava em uma loja Zara porque tinha vergonha para alguém que tranquilamente toma um drink em um rooftop na Suíça, porque finalmente entendi que tinha direito de ocupar esses lugares.” Também foi ali, no meio de ideogramas ininteligíveis, que ela percebeu que podia confiar na sua inteligência e habilidade de se virar em qualquer situação, incluindo os maiores perrengues.

Voando sozinha, mas em bando

Bia conta que, para brasileiros, viajar sozinho parece ser algo digno de pena, o que não acontece em outros lugares do mundo. No Nordeste, ela teve a oportunidade de se conectar com muitos estrangeiros, falar bastante inglês e conhecer várias mulheres viajando sozinhas – todas gringas. Já ela entende a viagem solo de uma forma diferente: “Se você tem a chance de se conhecer, se testar, se gostar e aproveitar um bom momento com você mesmo, nada melhor do que viajar sozinho”.

Bia carrega consigo uma lição valiosa aprendida na estrada: “Viajar sozinha te traz uma noção de que existe muito mais gente boa no mundo do que gente ruim. Quando você está viajando, as manifestações de solidariedade são genuínas, pois não estão restritas às suas bolhas sociais”. Em tempos tão sombrios e de tanta desinformação e desconfiança, compartilhar esse aprendizado é um ato de generosidade, não é?

Hospedando e se conectando

Viajante experiente, Bia também virou anfitriã no ano passado, quando decidiu colocar um quarto de seu apartamento na nossa plataforma. Os encontros têm se mostrado muito ricos: “Abrir sua casa para receber pessoas que estão passando por essa experiência de viajar é uma oportunidade de ter essa sensação na sua rotina, sem necessariamente estar viajando. As pessoas chegam na sua casa com histórias diferentes, e você viaja um pouco com elas. Ter histórias novas dentro da sua casa é algo precioso. Os viajantes sempre deixam um pouco da história deles com você”.

Quando perguntada sobre alguma troca marcante entre ela e seus hóspedes, Bia cita Elaine, cujo mestrado sobre mulheres negras empreendedoras citava a irmã de um amigo. “É triste que seja uma coincidência, porque isso mostra que o interesse acadêmico na gente é muito recente. Mas também é um sinal de que as coisas estão mudando; agora temos o poder de falar sobre nós mesmos.” Anfitriã e hóspede foram juntas à Feira Preta e trocaram muita ideia sobre essas questões.

No ano passado, a jovem ambientalista fundou a Brafrika, agência de viagem afrocentrada, hoje nossa parceira. Para o futuro, Bia prevê que existirão muitos estudos e pesquisas sobre empresas pretas, como a Diaspora.Black ou a Brafrika, em que pessoas negras estudarão mecanismos pretos de empreender.

Segundo a empresária, o racismo é multifacetado e se manifesta de diferentes formas. Ao viajar para outros lugares, só é possível aprender como ele afeta os negros ali a partir da troca e da conexão com outras pessoas. “Quando você tem a oportunidade de viajar e se conectar com pessoas que também são negras, você já parte de um lugar de empatia, acolhimento, afeto e cuidado que às vezes não encontra com outras pessoas. Há uma abertura maior para falar sobre determinadas coisas, pequenas coisas, como um creme de cabelo que você pode pegar emprestado se esqueceu o seu.”

Para quem quer ser anfitrião, Bia recomenda ter sempre o coração aberto para as diferentes vivências das pessoas, e transformar a casa em um ambiente acolhedor e confortável, de modo que os hóspedes se sintam seguros ali. E finaliza: “Você estar aberto para se conectar com pessoas que nunca viu na vida é algo mágico”.

Então vamos juntos?

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