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História negra de Ouro Preto

O intelectual Tulio Custódio em sua visita à Mariana e Ouro Preto (MG), em 2019

As belezas naturais e a riqueza da gastronomia, da cultura, da arquitetura de Ouro Preto, em Minas Gerais, são muitas – mas será que as histórias narradas na cidade e sobre a cidade refletem e valorizam as raízes, o legado e a resistência negra da cidade?

“Nessa foto estou olhando indignado para duas turistas brincando com o Pelourinho, em Mariana (MG). Aliás, era o segundo momento do dia em que sentíamos nas narrativas e gestos o desrespeito com a memória do negro. Não é leve”. O relato de Tulio Custódio foi registrado em 2019 mas ainda é atual e vale uma reflexão sobre como o turismo precisa ressignificar suas narrativas e valorizar nossa memória afrobrasileira.

Nas histórias narradas pelo turismo tradicional, não se conta, por exemplo, que a razão da prosperidade do Ciclo do Ouro na cidade foi a inteligência e habilidade técnica dos africanos que trabalhavam nas minas. Eles já dominavam as técnicas de garimpo e desenvolveram novas estratégias e engenharias para o trabalho em Ouro Preto, permitindo o desenvolvimento da cidade e do País.

“Para nós, o povo negro, é uma revolução”, garante a historiadora e pesquisadora da cultura africana Sidnéia dos Santos. “O que sempre foi ensinado é que Portugal levou ouro do Brasil. Mas há mais camadas: os portugueses sequestraram e escravizaram pessoas em África, trazendo para cá um povo que tinha conhecimento em mineração, que era especialista nisso”, examina. “Essa é uma forma de contar um outro lado da história e ressignificar o papel do negro na constituição da cidade e da nossa identidade”, sustenta.

A pesquisadora conta que os africanos trazidos para Ouro Preto eram da região da Nigéria, do Congo, de Gana e de Camarões, onde eram especialistas em minério. Sidnéia lembra que, em Ouro Preto, muitas famílias negras, de africanos em diáspora, assinam o sobrenome Ferreira e pontua: “É justamente por conta dessa tradição”.

Chico Rei

Viviane Gonzaga participou do tour sobre Chico Rei

Uma das histórias mais conhecidas da cidade é justamente de um congolês – e a mina que leva o seu nome um dos principais atrativos turísticos.

Galanga Chico Rei foi um rei congolês que foi perseguido e escravizado em seu país, e que chegou ao Brasil para trabalhar nas minas. Apesar das condições adversas da escravidão e do trabalho das minas, ele conseguiu comprar sua alforria e, em seguida, comprar a mina para explorar os recursos em seu benefício – e também de outros escravizados.

Com os recursos das minas, ele comprou outras alforrias e libertou dezenas de outros escravizados na região. Sua história se tornou uma lenda na região, e ele ficou conhecido como um rei empreendedor. Suas estratégias que utilizava para juntar dinheiro, são temas de uma caminhada que acontece na cidade – e que você pode reservar no site!

Mina do Veloso

O engenheiro civil Eduardo Ferreira comprou, restaurou e abriu a visitação a Mina Du Veloso, que fica no bairro de mesmo nome em Ouro Preto. Seu objetivo era justamente valorizar a memória dos africanos e o conhecimento trazido para a mineração da cidade.

O bairro, afastado do Centro Histórico, abrigava diversas minas no período escravocrata, e teve o nome alterado para São Cristóvão, como forma de apagamento da história.

O trabalho na Mina du Veloso, hoje, é enaltecer a contribuição dos escravizados africanos para o desenvolvimento da mineração na cidade, e também para toda a riqueza econômica e cultural da cidade.

Eldorado

Mas nem só de minas e mineração vive Ouro Preto. Recentemente, em 2019, foram encontradas no porão de uma casa da cidade, ilustrações pintadas na parede que provavelmente eram de africanos escravizados que viviam confinados no espaço.

As imagens retratam animais típicos da savana africana, como uma espécie de pássaro e um guepardo. Há ainda o registro de um pilão, que ainda não era um instrumento usada no país. Há também a figura de uma embarcação, o que era incomum para a cidade que não tem litoral ou rios de grande porte para navegação.

Segundo a pesquisadora Sidneia dos Santos, ela, a embarcação representada na parede lembra aquelas que navegavam pelo rio Níger, na Nigéria. O local está aberto à visitação.

Além das relíquias históricas, na região próxima à cidade, há cachoeiras e trilhas na natureza por exemplo. Há também comunidades remanescentes quilombolas, por onde há passeios para conhecer o conjunto de casas e algumas memórias presentes do período colonial.

O legado da arquitetura barroca, marcado pelo trabalho do escultor Aleijadinho e seus alunos, é também um ponto alto do turismo da cidade. Mas há outros atrativos, como a gastronomia de alta influência afrobrasileira, as festas populares e tradicionais, além das belezas naturais do entorno.

Contar essas histórias, valorizando a contribuição negra, é o nosso propósito! Vamos juntos?

#VivaDiaspora

*Com informações do jornal O Tempo: https://www.otempo.com.br/interessa/cenas-africanas-sao-encontradas-em-porao-de-casa-centenaria-de-ouro-preto-1.2256524



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