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5 de fevereiro de 2018

Negra, bela e real

Sem modernização há décadas, trem permite conhecer a crueza e beleza da periferia de Salvador com vista para o Atlântico e morros

Uma estação com estilo inglês com um relógio no topo, paredes descascando e ar de abandono se impõe nas franjas do centro de Salvador, já na Cidade Baixa. Comércio popular em barracas, frutas, cores e aromas ladeiam um lugar frequentado quase na totalidade por pessoas negras que moram na periferia. Calçada é o nome desse lugar que liga a “cidade” ao Subúrbio Ferroviário, um conjunto de bairros que abriga quase 500 mil pessoas.

Por dentro, o teto da estação projetada em 1855 foi reforçado com um forro. Pessoas esperam em banco de madeira e na bilheteria você fica sabendo que o trem custa apenas R$ 0,50. Logo vamos entender o porquê. Só há dois trens em circulação. Um vai e outro volta. O intervalo entre um e outro é de 40 minutos. Mas não é incomum só um deles estar funcionando e esse tempo dobrar. A idade dos trens ajuda a justificar. O tempo passou e a estrutura deteriorada foi sendo esquecida e sem modernizações circula como uma sucata ambulante levando gente do trabalho para casa, da casa para o comércio do centro e ligando o subúrbio ao resto da cidade.

Na plataforma, homens vendem picolé a R$ 1, amendoim e balas. Duas mulheres mostram cabelos sintéticos que acabaram de comprar para outra, enquanto dois homens conversam sobre as dificuldades para receber o PIS (Programa de Integração Social). O trem se aproxima e as conversas dão um intervalo. O vão entre o trem e a plataforma é enorme. Nenhuma sinalização pedindo cuidado é vista. Nenhum esforço para instalar mini rampas é percebido. Dentro do trem, os homens sentam de lados opostos, mas nem corredor que os separa interrompe a conversa. Continuam a falar sobre as burocracias do Estado.

As pessoas carregam sacolas da ida ao centro, comem salgadinho e conversam entre si. Só um homem está no celular. No calor do verão da Bahia todos usam bermudas ou shorts curtos. O trem parte do século XIX rumo a….? Apita, chacoalha e passa pelas casas abandonadas que pertenciam à antiga Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), empresa do governo federal, que administrou essa linha por décadas antes de ser doada para o governo da Bahia. Um esgoto a céu aberto ladeia os trilhos. Homens trabalham ao lado de entulhos. Um campo de futebol abre caminho para uma comunidade.

Na estação seguinte homens sobem com caixas de feira. Uma mulher carrega um balde d’água. O esgoto ganha sacolas e garrafas. O lixo boia na água que segue os trilhos. Entre as mulheres negras, cabelos presos nos lenços, apliques e alisamentos. Muitos penteados coloridos. Tudo em volta é de uma realidade crua e sem maquiagem que até chega a assustar um pouco. No horizonte os prédios imponentes da Barra parecem cada vez mais altos e distantes. Numa curva o trem encontra com o mar e o atravessa em uma ponte. Trilhos sobre água. No mangue do entorno, as pessoas trabalham catando caranguejos. O cheiro é forte. Barcos estão estacionados à espera da pesca do dia seguinte. “Peão do mar” é o nome de um deles.

 

Ninguém olhou para essa gente durante anos. Uma criança solta no vagão indigna uma passageira, Ela opina que os pais precisam tomar conta para evitar acidentes. Um menino se incomoda com as fotos que tiramos do trem, tampa o rosto, abaixa a cabeça e muda de lugar. Os barracos construídos à beira mar escalam a encosta em volta dos trilhos. Eles tentam, mas não impedem nossa visão de um mar verde quase caribenho.

Quando achamos que vamos para lugar nenhum nos deparamos com a construção de novos condomínios e com uma escola mantida pelo Google. As crianças brincam e dão tchau para os passageiros do trem. Na última estação, Paripe, uma feira no chão de terra vende produtos diversos. Me lembra o entorno de uma estação de trem em Fez, no Marrocos, mas aqui, nos fins de Salvador, além de eletrônicos, frutas e roupas baratas há carne seca e gente fazendo a “fé” numa agência das Lotéricas improvisada num contêiner.

Em nenhum momento nos sentimos inseguros. O trem traz grafites e as marcas do tempo. No batente se lê “portas fechadas trazem mais segurança”. Mas as portas não fecham. Ou nem existem portas em outra parte do vagão. O vendedor de picolé é bonito que só e posa para as fotos. Bonita é também a moça que usa lenço combinando com o batom roxo.

Voltamos até metade do caminho. O passeio termina na estação Almeida Brandão. Por lá, o Restaurante Boca de Galinha serve às sextas, sábados e domingos moquecas com vista para o mar e para o trem. É preciso levar dinheiro in cash (não aceita cartão), mas é possível fazer o depósito online na hora. Seguimos para o Acervo na Laje, um centro cultural que abriga mais de 4 mil obras de arte, entre quadros, artefatos, esculturas, fotos, azulejos, entre outros, de artistas região. O bate-papo com José Eduardo Ferreira Santos e Vilma Soares Ferreira Santos vai te deixar encantado.

  É José Eduardo que nos conta que Euclides da Cunha pegou o trem na Calçada cruzou a região onde hoje está o Acervo da Laje e foi até Canudos. O caminho também é retratado no filme Tocaia no Asfalto, que retrata em sua narrativa os caminhos entre as estações de Calçada e Escada.

Os caminhos poéticos e abandonados do Subúrbio Ferroviário estão com os dias contados. Um projeto do Governo da Bahia pretende instalar um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) no local. A primeira licitação foi descartada e uma nova deve ser lançada neste ano. O projeto prevê novas estações, extensão da linha até a Lapa, ligando ao metrô, mas também deve aumentar a tarifa para o mesmo preço dos ônibus e metrô (R$ 3,70), o que deve diminuir a mobilidade de quem hoje paga R$ 0,50.

Além disso, as comunidades temem a possibilidade de construção de um muro que pode separar o Subúrbio dos trilhos e do mar. A discussão do projeto com as lideranças comunitárias ainda não foi feita. A previsão é que o VLT seja concluído em dois anos. Se for feito nesse prazo será tempo recorde no Brasil. O mais provável é que o Subúrbio Ferroviário fique um tempo sem a linha férrea que dá vida, história e movimento ao lugar.

Texto: Guilherme Soares Dias/Fotos: Heitor Salatiel

 

 

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