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21 de janeiro de 2018

O Melhor de Angola

Um rastafari de origem khoisan (população original da região) me disse que não gosta muito de ir ao ocidente, que costuma sentir por lá um ar de superioridade.

Sabe aquela coisa de “essa é a coisa certa” “é dessa forma que se faz”? Não dá para pensar assim em África. Cada país e povo tem seu jeito próprio de fazer, e as referências aqui na maioria das vezes passam bem longe do ocidente.
Por mais que existam semelhanças entre o povo brasileiro e o povo angolano, ainda somos bem diferentes.
Na verdade não existe de fato um povo angolano com uma característica única. Existem vários povos, os de origem bantu, como os kimbundu (conhecidos por ser mais astutos), os umbundu (mais trabalhadores), os bakongo (mestres nos negócios) e as outras várias etnias como os hereros, kiokos, entre outros.

Ir para Angola é saber que você pode pegar um ônibus de viagem entre as províncias e no meio do caminho (no meio do nada) o motorista para e diz: “podem ir ao banheiro”. O banheiro na verdade é o próprio mato. É encontrar churrasco de galinha em cada parada da viagem (e só isso). É ver que não é preciso ir ao shopping para comprar nada, porque na rua se vende praticamente tudo. É ter que pegar varias candongas (vans) em Luanda para conseguir conhecer a cidade, com um trânsito louco e os candongueiros (motoristas das vans) disputando entre si os passageiros.

Ir para Angola é ver os kupapatas (mototaxi) serem o transporte principal que circula toda a província de Benguela. Não tem uber, não tem fast food em cada esquina, não tem wifi em todos os lugares (internet em casa é muito caro) e em muitos lugares é difícil ter água saindo da torneira diariamente.

Por outro lado, a capital da Angola, Luanda, é a cidade mais cara do mundo. Lá é quase impossível encontrar hospedagem por menos de 100 reais. E você pode transitar entre a vida de um mochileiro fudido e um rico. Se de um lado você vê musseques (favelas) sem asfalto, água e luz, do outro você pode ver mansões e shoppings cheios de famílias pretas ricas e jovens usando Supreme, Nike e Adidas. Já a classe média cresce timidamente.

Nas ruas você vai encontrar um povo simpático, sorrindo e dizendo obrigada a cada bom dia. Vai ouvir kuduro, kizomba e muita música brasileira. Vai descobrir que eles gostam muito dos brasileiros e preferem filmes legendados em português do Brasil a português de Portugal.

E que eles assistem muita Record e morrem de medo do Rio de Janeiro . A propósito, tem Igreja Universal em todos os lugares e muita, muita festa.

Para te situar no tempo, Angola viveu anos em guerra civil e só em 2002 assinaram a paz. É ainda muito recente, mas o país já caminha para uma mudança com um novo presidente (depois do ex-presidente ter estado mais de 30 anos no poder). Nas ruas a gente escuta as pessoas falando sobre esperança e desejando um país com menos pobreza. A memória da guerra ainda está na cabeça dos mais velhos e nas histórias passadas de pai para filho. O medo do passado ainda paira, mas o sorriso e a alegria de um povo que adora festa é maior que qualquer passado.

Mas, vejamos, tudo isso são meras impressões. Eu acho que a melhor forma de conhecer um lugar é através das pessoas que ali vivem.  Três pessoas nos marcaram em Angola. E é sobre essas histórias que quero falar.

Em Luanda conhecemos Papel, o motorista e também responsável por assuntos administrativos (vistos, imigração etc) da empresa de um fotógrafo brasileiro em Angola. Além de ser um empreendedor do seu próprio negócio: uma casa de festas num terreno bem grande que tem tudo para virar também um restaurante e um hostel.

Fomos recebidos por ele assim que chegamos no aeroporto, um negão de 2 metros e meio, e o amor foi à primeira vista. Papel é um homem de meia idade que na juventude foi jogador de basquete e lutou na guerra. Por causa do esporte e da sorte (como ele mesmo diz) ele sobreviveu entre tantos amigos que morreram. Com ele conhecemos a cidade de Luanda de verdade, fomos nas feiras e nas favelas. Quicolo é uma dessas conhecidas que vendem de tudooo. Tudo mesmo! De coração de boi a cabelo do Brasil. Fomos a xicala e comemos mufete, um prato típico com peixe, feijão de palma e banana da terra. Tomamos cerveja barata (aliás, cerveja e vinho é muito barato em Angola), fomos ao Museu da Escravatura e à fortaleza de São Miguel, que conta toda a história do país desde o tempo colonial – passando pela guerra civil e a história dos partidos – até os tempos atuais.

Com Papel aprendemos que o povo Angolano tem muitas tradições e uma dessas tradições é o alambamento. Se você é homem e quer se casar com sua namorada, além de fazer o pedido à família, você vai receber do pai da noiva uma série de pedidos, coisas que precisam ser compradas. Geralmente se pede cervejas, carnes, roupas. Tem gente que lista até moto. Pobres, ricos, jovens e velhos seguem a tradição do alambamento. E caso você se separe ou fique viúvo, tem que devolver tudo que ganhou de volta.

(O alambamento é bem interessante e deve ser estudado).

Papel nos contou as histórias do tempo da guerra, falou que a guerra não era do povo angolano. Falou das frustrações do povo com a política e do medo de reivindicar direitos. Falou também da força do povo em resistir e da criatividade de se reinventar todos os dias.

Em Benguela conhecemos a Mufana. Uma jovem de 23 anos, fotógrafa, que nos recebeu em sua casa pelo couchsurfing junto com sua família. Casa grande, família grande, 10 irmãos e muitos primos. Típica família angolana. Mufana é filha de um rastafari, que trabalhou nos assuntos administrativos na época da guerra e atualmente trabalha para o governo, e de uma mãe que também lutou na guerra.

Ela, junto com mais dois amigos, montou um studio que presta serviços de fotografia e vídeo para casamentos e empresas comerciais. Mufana é de origem tchokwe e ovimbundo e nos explicou como são as tradições para as mulheres. Mulheres sem marido e sem filhos são discriminadas na sociedade. Ela é uma mulher separada com um filho, com um mundo pela frente e um sonho de sair viajando nele inteiro. Ela nos ensinou sobre coragem para romper com os padrões.

Benguela é uma cidade muito diferente de Luanda. Mais limpa, mais segura, parece uma cidade charmosa do interior, com bares e cafés bem fixe (legais) por todo o lado.  Em Benguela, você pode conhecer a praia da Caotinha, os artesanatos que ficam na frente da praia Morena, comer muamba de galinha, calulu de peixe, tomar a cerveja N’angola e ir a Lobito – a cidade ao lado (meia hora de distância), onde tem a praia da Restinga (lindaaaa demais!)

Em Lubango conhecemos o Gege, um jovem mestiço de 29 anos, pai português e mãe angolana. Ele trabalha com construção civil e eletricidade no hotel que ficamos hospedados. Se ofereceu para ser nosso guia. Nos levou para vários passeios turísticos em que não teríamos como chegar de transporte público. Conhecemos o miradouro da Serra da Leba, a Tundavala, a cachoeira da Huila, o Cristo Rei e a as Mumuilas, comunidade tradicional do sul da Angola.

Gege nos contou da sua vida, do seu casamento e falou que a tradição do alambamento é mais dos negros e que os mestiços seguem mais os costumes do Brasil. Falou que tem um sonho de conhecer o Brasil e ficar com uma mulher brasileira. Segundo ele, falamos e fazemos sexo sem pudor.

Gege tinha muitas certezas sobre o Brasil. Para ele, as novelas e filmes brasileiros ensinaram aos africanos sobre “essa coisa de gay”, “no meio do mato não tem gay nem lésbica”. Passamos a tarde juntos conversando, cada um explicando o mundo à sua maneira. Ao final, comemos churrasco de galinha, batata e cerveja e agradecemos pelo passeio.

Angola é Complexo?
Sim.

Mas o melhor de Angola são os angolanos.

#VivaDiaspora