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O que é ancestralidade e o que ela pode nos ensinar sobre nós mesmos

Ancestralidade é uma palavra que pode ser interpretada de diversas maneiras, dependendo de quem está sendo indagado(a). Mas, de uma forma geral, ancestralidade dá conta de falar sobre quem veio antes de nós, fala de nossa linhagem familiar, hereditariedade.

Você conseguiria relatar a história de cada um de seus ancestrais (podendo ser avós, pais, tios…) e como eles influenciam sua própria vida? Saiba que o termo é um valor civilizatório africano e que pode ensinar muito pessoas negras.

Entrevistamos a Mestre em psicologia Gaby Oliveira, estudiosa do assunto e idealizadora de um método terapêutico que nos conecta com nossa ancestralidade, a Constelação Afrosistêmica. 

Afinal, o que é ancestralidade?

Segundo a Mestre em Psicologia da Saúde , Gaby Oliveira, “ancestralidade é fonte de vida, sabedoria, identidade, pertencimento e criatividade, é o fio que tece passado, presente e futuro, formando uma teia de relações que conecta humanidades. É também a memória que transcende espaço e tempo para recriar futuros possíveis e saudáveis. ” 

Pensar em todas as pessoas que vieram antes de você dessa forma é entender que há algo dentro de você muito maior, um caminho que já vinha sendo traçado de várias formas, inclusive culturalmente. 

Como pessoas negras e descendentes de pessoas negras, então, se relacionam com a ancestralidade?

Ainda para Gaby Oliveira, “a colonização, a escravização e o racismo pandêmico nos dispersaram da nossa localização ancestral africana, o resultado deste processo perverso fragmentou a nossa identidade histórica, cultural e psicológica.” 

Ela diz também que “esses atravessamentos nos colocam o desafio de resgatar a nossa humanidade, identidade e o sentimento de pertencimento em conexão com a nossa ancestralidade africana”. 

Tudo isso vai muito além da estética. Está nas dimensões ética e política, também na perspectiva da libertação psicológica e da produção de saúde mental. 

Como se relacionar com a sua própria ancestralidade?

Uma das formas de buscar a própria ancestralidade é por meio de autoconhecer-se. Isso pode ser feito de formas variadas. Uma delas é a Constelação AfroSistêmica ©️.

Para Gaby, a idealizadora desse método terapêutico, afrodescendentes têm um legado de cura coletivo. E foi essa ideia mesmo que orientou sua prática profissional.

O método está em alinhamento com a Black Psychology (Psicologia Preta), e resgata tecnologias ancestrais em conexão com matrizes e filosofias africanas, aplicadas ao tratamento de trauma histórico racial e suas múltiplas expressões. 

A Constelação AfroSistêmica©️ como revelador do que é a ancestralidade.

O método proposto por Gaby também pode ser encarado como um ritual ancestral africano, capaz de acessar informações registradas no DNA, como feridas e memórias celulares de traumas (individual, familiar e histórico), possibilitando movimentos de auto-cura, expansão da criatividade e, restabelecimento da potência e força vital.

Ela também fala sobre a idealização do método:  ” Em toda a minha trajetória profissional eu atuei prioritariamente com famílias em situação de vulnerabilidade social, em sua maioria afrodescendentes. O maior incômodo como profissional foi constatar, durante toda a minha jornada acadêmica,  o silenciamento e a negação, sobre os impactos do racismo na saúde mental de afrodescendentes. Este incômodo me levou a pesquisar autores e metodologias, para além dos autores clássicos, capazes de dialogar com as subjetividades negra.” 

Gaby revela também que “como mulher negra, viver exposta às múltiplas agressões e violências na intersecção raça-classe-gênero impulsionou a buscar respostas para curar as minhas próprias feridas.

A colonização, o rapto transatlântico, a escravização, o genocídio, o epistemicidio e o racismo pandêmico são algumas macro-agressões coletivas e históricas, compartilhadas por nos afrodescendentes. Seus impactos produziram o que Wade Nobles denominou  ‘encarceramento mental’. Ele diz que o racismo aprisionou nossos corpos e também nossas mentes e sugere um foco psicológico afrocentrado, capaz de CRIAR e criticar IDEIAS, TEORIAS e PRÁTICAS, voltadas à CURA DO SER, DO VIR-A-SER e da PERTENÇA AFRICANA em todas as expressões históricas e desdobramentos contemporâneos.”

Perguntas e respostas: como a Constelação AfroSistêmica©️ nos conecta a nossa ancestralidade.

Conversamos mais um pouco com a Gaby para ela explicar mais pra gente como funciona o método e o que se pode esperar ao iniciar as sessões.

Gaby Oliveira é a idealizadora da Constelação AfroSistêmica©️

Blog da Diaspora.Black: Fale mais um pouco da Constelação AfroSistêmica©️ e como ela surgiu.

Gaby: A idealização da Constelação AfroSistêmica©️ é fruto das minhas reflexões e inquietações sobre os impactos perversos do racismo nas subjetividades negras. Minha inspiração surgiu, desde um lugar de muita RAIVA. Raiva pelo lugar do silenciamento, das opressões, das exclusões, dos privilégios inquestionáveis, dos estereótipos  e, principalmente, RAIVA do epistemicídio sistêmico. 

Audre Lorde diz que Mulheres respondendo ao racismo significa mulheres respondendo à raiva”, então compreendi que precisava metabolizar minha raiva e usá-la como combustível para o movimento, a ação, a transformação social e individual.

O continente africano e o berço da humanidade e detém conhecimentos e tecnologias milenares, mas ao longo da história, e principalmente no processo de colonização,  foram muitos  os cientistas, antropólogos e missionários que investigaram e se apropriaram dos saberes  africanos para construir métodos, técnicas, teorias. 

A Constelacao AfroSistêmica se apoia também no paradigma da Afrocentricidade.

A pergunta central no paradigma afrocêntrico é: qual a sua localização psicológica? 

Você ocupa um lugar central ou marginal em relação a sua cultura?

A ideia da afrocentricidade,  convida a  nós africanos, deslocar o nosso olhar da cultura europeia como normativa e universal e realocar nossa visão na nossa própria matriz cultural e histórica.

Conceber-se de uma forma compatível com sua história, cultura e ancestralidade é estar centrado. Por outro lado, se você não reconhece suas raizes, fica a margem de sua própria história, deslocado, sem pertencimento e sem identidade,

Blog da Diaspora.Black: O que é o trauma racial histórico? Ele é o ponto de partida para iniciar a constelação afrosistêmica?

Gaby: Traumas Raciais Históricos são ferimentos emocionais e psicológicos cumulativos e compartilhados ao longo das gerações, incluindo a própria expectativa de vida.

As experiências seculares e cumulativas de violação de direitos, abuso e opressão, decorrentes do racismo pandêmico, ao serem normalizadas socialmente,    produzem lesões individuais e coletivas contínuas devido à exposição e reexposição ao estresse baseado em raça. 

Resultados de pesquisas em epigenética sugerem que nosso DNA pode conter carga de memórias e feridas traumáticas experimentadas por nossos ancestrais. 

A questão é que reviver esta dinâmica atualiza e potencializa a carga de memórias e feridas traumáticas historicamente já instaladas. 

O “Banzo”, normalmente descrito como um estado psicopatológico de melancolia e depressão profundos, seguidos de inanição e em muitos casos o suicídio, acometia os africanos escravizados. Atualmente, a partir de pesquisas motivadas pela crise global de refugiados, admite-se que a migração forçada combinada com sofrimento físico e mental aumenta o risco de doenças mentais. 

Este quadro nos permite pensar em um banzo atualizado, Seus efeitos transcendem por gerações e as feridas são atualizadas constantemente pelos impactos perversos da variante raça-classe-gênero em suas múltiplas expressões.

O resultado do trauma histórico racial, incide em indicadores negativos para a saúde emocional, física e coletiva.  O transtorno de estresse baseado em raça é real. 

Seus sintomas são culpa, depressão, ansiedade, medo, hipervigilancia, auto-ódio, comportamento autodestrutivo, intolerância ao afeto, internalização e lealdade ao sofrimento ancestral que limitam a esperança no futuro. Maior incidência de diabetes e hipertensão arterial, entre homens e mulheres negros também podem ser resultado deste processo.

Coletivamente o Trauma histórico racial enfraquece o senso de pertencimento e promove a ruptura com identidade cultural (valores, símbolos, rituais de passagem).

As possibilidades de cura e Intervenções em Trauma Histórico Racial, segundo especialistas, diz respeito a necessidade de elaborar o luto histórico não resolvido e focalizar a co-criação de um futuro desejável. Um Afrofuturismo potente,como eu gosto de dizer.

Como nos lembra Conceição Evaristo “Apesar das acontecências do banzo, há de nos restar  a crença na precisão de viver”. 

Enfrentar a perda e experimentar o sofrimento é uma parte crítica do processo de cura. Envolve desenvolver a a capacidade de sentir as emoções, incluindo a dor e as tristezas e, assim, liberar espaços para existir, além da dor. 

Eu acredito que a (re)conexão ancestral é fundamental neste processo. Acessar as memórias de força, potência, criatividade e resistência ancestral. O princípio africano Sankofa nos convida a revisitar o passado, ressignificar o presente e criar o futuro. 

Neste aspecto, a Constelação Afrosistêmica© é também uma experiência de aquilombamento!

Blog da Diaspora.Black:  Explique como funcionam as sessões, quem pode e quem deve fazer a terapia. Podemos chamar de terapia?

Gaby: Na prática, a sessão se assemelha aos rituais de cura realizados na medicina tradicional africana que operam em sistemas integrados de saúde física, emocional, mental e espiritual. 

Os Sangomas, praticantes da medicina tradicional africana, presentes em várias culturas do continente, em especial na cultura Zulu, operam rituais de cura, evocando a presença dos ancestrais através Da Bhula, uma espécie de oráculo africano de consulta aos ancestrais através do jogo de ossos ou pedras. 

O processo é intuitivo e sensitivo. O Sangoma interpreta a disposição das pedras, intui, percebe, se conecta com informações do sistema ancestral do consulente para indicar movimentos de cura. 

Na Constelação Afrosistema eu utilizo bonecos (confeccionados por mim), como representantes de pessoas, situações, sintomas, emoções, doenças, lugares etc.

A Constelação AfroSistêmica é um Espaço seguro de escuta, afeto e cuidado; Todos os temas possíveis na dinâmica de violências e opressões da intersecção rases-classe-gênero são reconhecidos, legitimados, validados e acolhidos.

A terapia é indicada para as pessoas que estejam abertas e motivadas a iniciar uma travessia de transformação pessoal. 

A Constelação AfroSistêmica é direcionada à afrodescendentes. Eu acredito que temos um legado de CURA ANCESTRAL COLETIVA. É URGENTE. Temos o direito de ser e  existir de forma plena e saudável no AGORA e no FUTURO!!!

Diaspora.Black: Quais são os principais temas/termos da cultura africana que são apresentados ao cliente (chamamos de cliente)?

Gaby: Entre os valores e princípios fundamentais das culturas africanas, são apresentados: 

  • Ma’at representa o equilíbrio matemático perfeito e a harmonia do universo presentes no movimento de retração e expansão. Representada pela deusa negra Kemética do antigo Egito, Maat, personifica a ordem cósmica e social, a justiça, retidão e a verdade.  
  • Ubuntu, principio ético Africano que reivindica a humanidade, o pertencimento e a interconexão entre todos os seres.
  • Ancestralidade e Senioridade, são valores centrais nas culturas africanas. A conexão ancestral é fonte de sabedoria, identidade, pertencimento e saúde. Honrar os ancestrais e os mais velhos, significa reconhecer a sabedoria dos que vieram antes de nós. Significa tomar a vida em sua plenitude!
  • Kindezi, nas culturas Africanas, em especial entre o povo Bakongo,  nos diz que a chegada de uma criança na comunidade é o nascer de um novo e único “SOL VIVO”.

Todos estes valores e princípios são aplicados na prática terapêutica, ritmados pelo movimento Sankofa, que nos convida a revisitar o passado, ressignificar o presente e construir um Afrofuturo saudável e potente.

Blog da Diaspora.Black: Como a Constelação Afrosistêmica pode influenciar na condução da vida da pessoa que opta pela experiência?

Gaby: Entre os benefícios da Constelação Afrosistêmica eu destaco: 

  • reconhecimento, sentir e liberar a dor aprisionada em memórias celulares (emocionais e corporais); 
  • ela possibilita elaborar o luto não vivido (individual, familiar e histórico) e também o luto de ciclos de vida interrompidos inesperadamente; 
  • permite observar processos de identificação com padrões doentios no sistema familiar e ancestral; 
  • estimula reconhecer e nomear as emoções e sentimentos; favorece a clareza sobre os papéis, funções e limites saudáveis de todo o sistema familiar;
  • fortalece a identidade e o pertencimento (individual, familiar e coletivo);
  • conexão com as histórias de resistências, potências e sabedorias da sua linhagem ancestrais;
  • equilibra o pensar, sentir e agir para a construção de um afrofuturo mais saudável;
  • favorece a expansão de consciência corporal, emocional e mental;
  • integração espiritual.

Conheça mais sobre a Constelação Afrosistêmica aqui na plataforma da Diaspora.Black

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