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Para lavar a alma

Lá se vão 13 dias que o ano começou, mas é só depois desta quinta-feira que os baianos se sentem realmente abençoados para começar a nova jornada de 2020.

É a tradicional Lavagem do Bonfim, que acontece há mais de 260 anos sempre em uma quinta-feira, de acordo com o calendário religioso: a quinta-feira que antecede o segundo domingo posterior ao dia de Reis. 

Lavagem do Bonfim

A festa já foi retratada em filme, fotografia, literatura, poesia, textão e milhares de fotos nas redes sociais – e dificilmente alguém consegue capturar a energia que emana daquela multidão de 2 milhões de pessoas com diferentes crenças que caminham lado a lado em direção à Colina Sagrada. 

“Não é uma festa de candomblé, nem católica, nem só ‘carnaval’. Também não é exclusiva para ricos, pobres, políticos ou manifestantes políticos”, descreve Guilherme Dias Soares, o Guia Negro, em seu blog

O percurso

É tudo isso e muito mais, tudo misturado, na rua, caminhando por 8 quilômetros sob o sol escaldante do verão soteropolitano.

A procissão começa por volta das 8h da Igreja da Conceição da Praia, bem ao lado do Elevador Lacerda. Termina (oficialmente) no final da manhã, na colina onde fica a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, na região conhecida como Península de Itapagipe ou Cidade Baixa. 

Foto: Bruno Concha

A tradição

À frente do cortejo, estão as baianas que iniciaram a tradição. Elas são responsáveis por lavar as escadarias na frente da Igreja – que fica fechada durante toda a festa. Contam os historiadores que a festa, originalmente católica, não permitia a entrada de negros para as celebrações e missas dentro da igreja. 

Por isso, as baianas e baianos das religiões de matriz africana começaram a realizar seus rituais do lado de fora do templo, evocando o polêmico sincretismo religioso. Ao final da celebração religiosa, acontecia a festa – rodas de samba, músicas e a alegria que só se encontra na Bahia.  

Ainda hoje é assim, mas com um cerimonial rigoroso que define – e limita – a lavagem das escadarias, com as baianas à frente do cortejo. Logo atrás das baianas, vem o cortejo dos políticos, que querem redimir os pecados ou caçar votos dos fiéis em seu momento de catarse. 

O ritual

Não tem problema! Após o ritual oficial, o público pode enfim chegar às escadarias para receber a benção das baianas: um banho de águas perfumadas com ervas e alfazemas.

É hora de amarrar nas grades da igreja a fitinha do senhor do bonfim e renovar os pedidos para o novo ano –  que enfim, poderá ser vivido com as bençãos de oxalá, senhor do bonfim e todos os santos que habitam a Bahia. 

Lavagem do Bonfim 2020

Neste ano, tem uma nova santa no hall das orações: a Santa Dulce dos Pobres, reconhecida pelo Vaticano como a primeira santa genuinamente brasileira. O santuário da antiga freira que ajudava os desvalidos da região fica no mesmo percurso da procissão, o que deve trazer ainda mais fé e devoção para o cortejo. 

Também haverá, em 2020, pela primeira vez, um cortejo marítimo com uma imagem santa navegando pelas águas da Baía no mesmo trajeto. Os pontos de partida e chegada da procissão são bem próximos de marinas, e a procissão marítima sempre foi informal, feita por barcos dos ricos e celebridades, mas também com escunas com ingressos a venda no local – uma excelente pedida para quem quer evitar a caminhada de volta, fechando o dia com chave de ouro!  

O cortejo pelo chão é democrático e aberto a todas as crenças. Há cortejos de blocos afro, como o Ilê Ayê e o Filhos de Gandhy, que levam percussionistas e carros de som para alegrar o trajeto. Há cortejos religiosos de diferentes paróquias católicas da cidade – embora a festa para os católicos só aconteça no domingo, quando há a missa solene na Igreja. E também, em alguns pontos, há evangélicos distribuindo folhetos e cantando louvores. 

E tem de tudo um pouco: carro de som tocando pagode, axé, funk e tudo mais. Há festas fechadas, com shows de músicos estrelados do samba e do axé; há cortejos de funcionários públicos (!) representando suas instituições (que geralmente ficam fechadas ao público neste dia, mesmo que não seja feriado) – é uma grande festa, a maior da cidade. 

Tem que ir para sentir.

Reprodução das imagens da Lavagem do Bonfim 2019, Fotógrafo Bruno Concha.

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