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Rio de muitos frutos

Conheça a história do Quilombo Ivaporanduva, no vale do Ribeira, em São Paulo, nosso destino em maio

Quem avança pela estradinha que liga os 45 quilômetros entre o município de Eldorado e o Quilombo de Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, região localizada entre o sul do Estado de São Paulo e o norte do Paraná, não imagina que vai se deparar com uma das comunidades tradicionais mais organizadas e estruturadas do Brasil.

Ladeada pelo caudaloso rio Ribeira de Iguape, que banha os estados do Paraná e de São Paulo com suas águas em tons café com leite, o povoado é composto por 400 habitantes e 110 famílias. Comunidade mais antiga do Vale do Ribeira, surgida como um povoado no século XVII antes mesmo da fundação de Xiririca, antigo nome de Eldorado, Ivaporunduva é marcada pela hospitalidade, alegria e espírito de luta de seu povo.

No vilarejo, tudo gira em torno da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fundada em 1790 e tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). A capela, considerada a mais antiga edificação religiosa do Vale do Ribeira, recebe cultos, missas, casamentos e batismos e é em volta dela, na praça da comunidade, que os habitantes se reúnem para conversar, festejar e para os momentos de lazer.

Ivaporunduva significa “rio com muitos frutos”. De fato, além dos peixes, abundantes nos rios da região, a paisagem montanhosa é pontuada pelos bananais. O cultivo da modalidade orgânica da fruta é bastante disseminado na comunidade, que também planta arroz, feijão, mandioca, palmito pupunha e outras frutas. Uma fábrica de beneficiamento prepara as bananas para serem vendidas por todo o País.

O outro principal meio de sustento é o turismo de base comunitária. A cada ano, cerca de 100 escolas são recebidas. A comunidade conta com uma hospedaria com ótima infraestrutura e capacidade para abrigar 60 pessoas. Os turistas são recebidos com uma programação bastante variada, que vai da colheita de arroz, feijão e hortaliças, visita às plantações de banana, plantio de mudas nativas e oficinas de caça e pesca à aulas de artesanato, gastronomia tradicional quilombola, contação de histórias e roda de viola. “A vinda de turistas é muito importante para ajudar a desmistificar o estereótipo que muitas pessoas têm sobre as comunidades quilombolas”, ressalta o coordenador da Associação Quilombo de Ivaporunduva, Elson Alves da Silva, em alusão à comentários preconceituosos disseminados.

O artesanato de fibras naturais, sobretudo das fibras de bananeira, é outra fonte de renda do povoado, que fabrica bolsas, tapetes, jogos americanos, colares, cortinas e pulseiras, entre outros produtos, mantendo a cultura e as tradições da comunidade de remanescentes do Quilombo Ivaporunduva.

Rotina de resistência

Ivaporunduva pode ser considerada uma comunidade tradicional modelo. Os líderes do quilombo são escolhidos em eleições a cada dois anos, sem direito a reeleição, o que garante a salutar alternância de poder. Os moradores se revezam nas tarefas e o dinheiro arrecadado com o turismo é dividido entre todos. Uma moeda social, aceita no comércio local, foi criada para facilitar as transações entre os moradores. E os produtos excedentes que não são vendidos dentro da comunidade são trocados por meio do escambo.

A comunidade teve o registro de terras em 2010

Para o coordenador da Associação Quilombo de Ivaporunduva, toda a organização, mobilização e politização da comunidade deve-se, em parte, às origens históricas, já que o povoado se tornou livre décadas antes da promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. A origem do quilombo remonta ao século XVI, quando a proprietária de terras e escravos dona Maria Joana retornou a Portugal (ou, como em outro relatos, faleceu sem deixar herdeiros), deixando a terra e seus escravos.

Outro motivo que faz do bairro um exemplo de organização é o número de lutas que precisou (e ainda precisa) enfrentar ao longo do tempo para se manter nas terras dos seus antepassados, o que acabou por unir e mobilizar os moradores em busca de melhores condições de vida e na luta pelos seus direitos. As ameaças são constantes e vão desde a restrição da liberdade de cultivo tradicional de subsistência até o crescente desmatamento por terceiros nas áreas de preservação permanente, principalmente nas matas ciliares, o aumento dos projetos de mineração, a monocultura de banana e pínus e o projeto de construção de quatro hidrelétricas na região que poderiam deixar o povoado submerso. Sem falar na via crucis para conseguir a posse da terra.

Para lutar contra todas essas ameaças e para aumentar sua organização, em 1994 foi fundada a Associação Quilombo de Ivaporunduva. Em 2003 a entidade recebeu do Instituto de Terras do Estado de São Paulo do (Itesp) o título de 672,28 hectares de terras. Em 2010, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) completou a titulação, registrando mais 2.035,12 hectares em nome da associação.

A despeito do direito das comunidades remanescentes de quilombos à propriedade da terra que ocupam estar previsto na Constituição de 1988, o andamento da ação foi bastante lento na Justiça Federal de São Paulo e somente no final de 2008 ocorreu a vitória no Tribunal Federal da 3º Região. Com isso, a comunidade foi a primeira do Vale do Ribeira a ter suas terras reconhecidas legalmente.

No dia 01/07/2010 os representantes da Diretoria da Associação dos Remanescentes do Quilombo de Ivaporunduva assinaram o registro de suas terras no Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Eldorado, tornando o território definitivamente legalizado. O fim do processo de titulação do território de Ivaporunduva renovou as esperanças das outras comunidades do Vale de terem seus territórios reconhecidos e registrados em cartório.

“Sempre existe alguma luta que precisamos travar. Meu pai viveu lutando, eu vivo lutando e meu filho já está aprendendo a lutar para garantir os nossos direitos”, resume Elson Alves da Silva.

Foto: Loiro Cunha
A comunidade é uma das mais tradicionais do País – Foto: Loiro Cunha

Vale do Ribeira — A Amazônia Paulista

O Vale do Ribeira destaca-se pelo alto grau de preservação de suas matas e por grande diversidade ecológica. É na região que a maior área de mata atlântica preservada do Brasil, sendo que a maior parte é protegida pelas próprias comunidades tradicionais. Dos 3 158,11 hectares de extensão de Ivaporunduva, 80% estão em área coberta pelo bioma de floresta tropical.

A região concentra o maior número de comunidades remanescentes de quilombos de todo o estado de São Paulo — são 57, segundo a Fundação Palmares. Além de Ivaporunduva, outras cinco comunidades quilombolas vivem nas cercanias: São Pedro, Pedro Cubas, Sapatú, André Lopes e Nhunguara, todas surgidas como desdobramento do próprio povoado

Vivência Quilombola

Ficou curioso para conhecer essa comunidade, sua história e as tradições que mantêm viva a cultura e identidade quilombola? Então pode preparar as malas! Em julho, nos dias 26 a 28, vamos viver uma imersão incrível na comunidade, promovida pela Plana Turismo! Serão dois dias com uma programação especial de oficinas, como gastronomia, garimpo de ouro, artesanato, e muito mais!

Confira as condições:
https://diaspora.black/produto/vivencia-no-quilombo-ivaporunduva-sp/

Texto: Gustavo Rossetti Viana | Fotos: Divulgação Plana