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Um Quilombo na Colômbia

Talvez você conheça Cartagena pelas praias, pela beleza da sua arquitetura e até mesmo pela mítica literatura de Gabriel Garcia Marquez. Mas, talvez você não saiba que a cidade tem uma forte influência negra na cultura – e que bem próximo dali resiste uma comunidade secular reconhecida pela Unesco como o primeiro território negro autônomo das américas.

San Basilio de Palenque, fica a cerca de 50 km de Cartagena das Índias, na Colômbia. Lá, a medicina, a língua, a escola, os rituais tradicionais, a gastronomia… tudo está impregnado de traços da cultura africana. Há mais de 200 anos, o território situado em meio às colinas do interior colombiano é reconhecido como a primeira comunidade negra livre de qualquer domínio colonial – a Colômbia só se tornaria completamente independente da Espanha cerca de 20 anos depois. 

Palenque, em espanhol, equivale ao nosso quilombo – refere-se a um território em que negros e indígenas se abrigavam contra as opressões coloniais.  Os mais antigos ainda preservam uma língua própria, original –  dissociada de todas as línguas africanas e também do espanhol.  Essa especificidade foi determinante para que a comunidade fosse reconhecida como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. 

A comunidade desde então preserva sua tradição com unhas e dentes. São cerca de 600 famílias que vivem em uma vila de ruas sem asfalto, muitas árvores, casas amplas de tijolo, escolas e centro comunitário bem cuidados e muita história.

Em San Basílio, a história está impressa nas paredes, em murais grafitados por artistas locais, nas músicas cantadas por grupos de rap e ragaton reconhecidos em todo o País.

Um dos mais emblemáticos grupos locais chama-se Kombileza-mi. O grupo Sexteto Tabala é uma referência internacional de música tradicional palenquera, com uso dos tambores. Ainda hoje, esses tambores são a base ritímica do ragaton e da champeta – um gênero de grande sucesso no país e que se assemelha ao funk. 

A história também está na praça central da cidade, onde uma estátua reverencia   Benkos Biohó, fundador da comunidade ainda no século XV. Contam os mais velhos que ele era descendente de uma família real de Guiné Bissau, e se insurgiu em diferentes cidades e fazendas que tentavam escravizá-lo. Por fim, fundou a comunidade e lutou com armas contra o poder colonial – morreu enforcado após ter seu esconderijo denunciado. 

Estátua de Benkos

A trajetória do líder é conhecida por todos na cidade, e passada entre as gerações. As escolas têm conteúdo autônomo, focado na história afro-colombiana. O ensino da língua não é mais obrigatório, mas semanalmente, os mais velhos se reúnem no centro comunitário para contar histórias aos alunos de diferentes idades matriculados na escola local que frequentam a sessão dentro da carga horária obrigatória.  

 Com poucas opções de geração de renda, o turismo é um dos principais formas de manutenção da comunidade, que se organizou com guias, restaurantes e também festas e atividades culturais que movimentam a vila o ano inteiro e atraem frequentadores de todo o mundo. Um dos atrativos são os salões de cabeleiros, com uma diversidade de penteados afro que exaltam a beleza da mulher negra local e se tornaram referência nacional. 

As cerimônias fúnebres são destaque na tradição local – toda a comunidade é envolvida. A música cantada é considerada também um patrimônio – com uma batida única de tambores ligados às religiões de matriz africana e que foram exportados de San Basílio  para diferentes cidades da Colômbia!

O orgulho, a alegria e a altivez da população local resistem mesmo sob as mais diferentes pressões. A mística do local é única e a visita é marcada uma forma de conexão ancestral inexplicável, que só quem vive a diáspora pode sentir. 

#VivaDiaspora

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Tipo: Cultura, Dicas

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