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25 de novembro de 2018

Guardiões de Palmares

Um roteiro pela memória dos griots que idealizaram e mantêm viva histórias e tradições do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas!

Tive a felicidade de  participar da programação “Vamos subir a Serra”, em Maceió, entre os dias 16 e 20 de novembro – um evento único de celebração à Consciência Negra, idealizada  pelo Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, em parceria com a Fundação Palmares e outras organizações e movimentos. Feira de empreendedores negros, representações de comunidades quilombolas, lideranças de matrizes africanas, grupos de capoeiras, palestras, debates, apresentações culturais e muitas outras atividades rechearam a programação dos 5 dias de atividades.

Ao longo desses dias, estive 4 vezes na Serra da Barriga, mas a primeira chegada foi emocionante. Por toda a estrada, admirei a paisagem entre os cerca de 80 km que separam Maceió do Parque Memorial  Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga. Lá em cima da Serra, nos deparamos com um portal de acesso ao parque, que preserva sítios históricos do maior território negro da América Latina, com mais de 20 mil habitantes no século XIX.  Meu primeiro pensamento foi de estar vivendo a minha maior realização.

Assim que entrei, fui levado pelo irmão Igbona Rocha até os Irocos – árvores sagradas e cultuadas num grande espaço na lateral da entrada de Palmares. Abracei Iroco, bati cabeça, chorei, lembrei de meu pai Iroco de meu egbe Ile Omiojuaro, das mais velhas lá de casa vendo aquele lindo Iroco, foi uma emoção só.

Foi uma subida rápida, sem tempo de percorrer todo o parque. Mas aquele encontro com Iroco, às margens da Lagoa sagrada, durou o tempo necessário para entender que lá é um local de vida. Iroco está vivo!

Palmares In Loco

A segunda vez que subi a serra, foi para vivenciar a grande pérola de toda a programação. O “Palmares in loco” é um roteiro guiado pelo que chamei de “guardiões” da Serra da Barriga. Os mais velhos, militantes do movimento negro de Alagoas, que ajudaram a criação do Parque e fundadores do Anajô: aqueles que guardam historias, memórias e muita luta pela preservação deste símbolo da resistência da população preta no Brasil.

Começamos o dia com um almoço no Restaurante Baobá, de Mãe Neide de Oxum, que me recebeu como madrinha da idealização da Diaspora.Black! O menu tinha tudo que adoro: Feijão tropeiro, mandioca escaldante, bode, carne de sol, moqueca de ovo, um abará maravilhoso e um acarajé dos deuses – só de pensar fico com fome!   Dançamos ao som das belas músicas que exaltavam a resistência Negra, e descansamos nas redes entre as sombras de muitas árvores que cercam todo o restaurante.

A tradição local prega que a subida para a Serra da Barriga deve ser feita caminhando, ao longo de um percurso de 7 km de ladeiras. Nosso grupo, seguia de carro – e muitos diziam que éramos privilegiados. Muitas risadas e piadas, quando a primeira curva todos foram surpreendidos: o carro não subia! Um caminhão parado travou o único caminho e nenhum carro conseguida subir. Para minha felicidade, descemos e seguimos caminhando.

O grupo se dividiu naturalmente, e de repente percebemos que os mais retintos caminhávamos à frente.  Igbona, minha amiga Angélica Basti, eu e um amigo, todos muito emocionados. Paramos no local onde foram deixadas as cinzas de Abdias do Nascimento. Passou pela minha cabeça alguns momento ao lado dele.

Nosso grupo, já com Makota Celinha, chegou primeiro ao lago enquanto o restante estava visitando outros espaços. Estávamos nós lá, diante do outro Iroco as margens do Lago Encantado. Meu pai Iroco lindo, velho e cercando de um cuidado lindo. Igbona, Makota e eu batemos cabeça, nos pedimos a benção e em seguida nos abraçamos e choramos feito crianças.

Igbona Rocha nos fez chorar ainda mais quando mostrou sua composição. Durante a subida, ele lembrou do sonho que teve anos atrás, em que algumas egbomes à beira do Lago ofereciam uma letra de música pra ele. Uma música linda, que muito nos emocionou na subida das ladeiras e ladeiras empoeiradas e íngremes, com uma bela luz do pôr do sol ao fundo. A mesma música que embalou nossa subida, agora nos emocionava diante de Iroco.

Nos abraçamos e choramos Angélica, eu, Igbona e Makota. Uma energia profunda, forte e intensa!! Tão intensa que não percebemos que o grupo foi chegando e fazendo um círculo ao nosso redor. A cerca me impedia de abraçar Iroco, mas pude dar uma volta sobre ele e ver que por mais velho e oco que o seu tronco pareça, via em sua imensa e folhosa Copa, muita, mas muita vida. Saí de lá completamente imerso na energia de Palmares.

Dia 20 de Novembro

O terceiro retorno ao Parque, foi no dia 20, dia da grande celebração no alto da serra da Barriga. Já na saída da cidade percebe-se a dimensão do que é Palmares. Centenas de pessoas, caminhado sobre uma vasta e iniciante estrada com “cinco sols pra cada um” – uma das expressões locais que aprendi para descrever o calor intenso. Naquele dia, passaram pelo parque cerca de 10 mil pessoas!

Crianças, famílias, idosos e muitos grupos subindo o linho percursos a pé. Neste dia, minha amiga Filó me apresentou os outros espaços que não tinha visitado. Filó é um capítulo à parte! Mulher negra, ex-moradora de Palmares e idealizadora do evento, ela tem um conhecimento profundo de cada cantinho da Serra da Barriga – e me mostrou os espaço que ela mais gostava e contou as muitas histórias da serra.

Fugimos dos lugares com os muitos visitantes até que paramos em uma das casas. Ficamos ali ir uma hora, enquanto todos as pessoas que passavam, vinham para falar com ela e abraçá-la.  Antes de partirmos, voltei à Lagoa. Fiquei horas ali, estava vazia, com poucas pessoas desta vez pude contemplar, agradecer, lembrar do que representava pra mim estar ali e do compromisso que se reafirmava.  [email protected] cidadã/o [email protected] deste país deve conhecer Palmares.

Sumidouro

Não contarei a história da lagoa encantada e nem outras de Palmares. É importante que elas sejam ouvidas e vivenciadas lá.  Porém, minha extrema alegria não esteve somente na recepção dos alagoanos, mas no inesperado convite para voltar à Serra  uma quarta vez, após conhecer um dos lugares mais importantes na história da luta do povo negro, o Sumidouro, local onde Zumbi foi assassinado e imortalizado.

Uma caminha da em meio a mata, trilhos, brejo e na comunidade remanescente marca o início da caminhada.   O Sumidouro que fica na Serra dos Dois Irmãos, não é um local de visitação ou tão pouco conhecido por esse importante fato histórico. Pouquíssimas pessoas conhecem este local e são menores ainda o número de pessoas que sabem que foi ali que Zumbi foi assassinado. Se a Serra da Barriga me suscitou emoções viscerais, imagine o Sumidouro.

 

 

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