Viagem com o coração – Diaspora.Black

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Viagem com o coração

Viajar não é simplesmente se deslocar. Viajar é  pisar fora de casa e estar presente no mundo. Estar presente, ser resistente. Por isso, convidamos todas a viajar, de avião, de barco, de ônibus, de bicicleta, a pé ou meramente com o coração.

 

Bitonga Travel é uma proposta criativa, idealizada por Rebecca Alethéia, que abre caminhos para a visibilidade de mulheres negras em trânsito e movimento pelo mundo. No dia 16 de dezembro de 2018 aconteceu, na praia da Enseada no Guarujá, o primeiro encontro. Catorze pessoas de diferentes lugares se reuniram para pautar questões de negritude feminina no espaço turístico.

Bitonga é uma língua bantu de tronco nígero-congolês, mais especificamente da região do Inhambane, Moçambique. Acentuada e belíssima, traz consigo traços fonológicos semelhantes aos sons do português brasileiro.

 

No encontro, conversamos sobre o fato de as mulheres negras não se sentirem representadas no turismo. Muitas de nós são, por vezes, excluídas e desconsideradas pelos hotéis e demais serviços. Não somos representadas nas propagandas, na mídia, na televisão. Então viajar o mundo é um sonho apenas para quem?

Eu viajo de caminhão. Eu mesma, a Mary que vos escreve. Andei milhas e milhas, fundos e céus. Aprendi a criar o mundo na mochila, em um mapa. E a partir daí, aprendi a lutar pela minha independência e pela liberdade das minhas ancestrais.

Além das questões externas, há também questões socialmente internalizadas que assolam os planos de viagens das tantas mulheres periféricas que sonham em viajar o mundo.

Somos constantemente julgadas pelo nosso movimento de partida, enquanto a mulher branca é parabenizada e aplaudida pela coragem de viajar para o exterior, praticando idiomas que já tem acesso de maneira confortável, estratégica e meritocrática. Viajar é então fruto de meritocracia?

Eu mesma respondo: para a mulher negra, não. A mulher, só por ser mulher, já é constantemente questionada por viajar só.

“Está se prostituindo?”, “Não é muito ligada à família?”, “Não quer nada da vida”, “Não quer estabilidade” são apenas algumas das frases lançadas a nós, que incluem os estereótipos mais uma vez pré-estabelecidos para mulheres que se colocam contra todo machismo, racismo, homofobia, transfobia e disparições sociais do capital. As questões de gênero também são preocupações para o Bitonga Travel. A mulher transexual e transgênere negra não tem a liberdade de ir e vir como a mulher cisgênere?

Convidamos todas para participar do nascimento desse projeto. Bitonga Travel propõe o encontro na intenção de unir as mulheres negras viajantes-passantes e valorizar em fotografias de viagem a estética natural pertencente à beleza diaspórica.

“Minhas viagens são sempre no modo roots. Mochila, comidas, ônibus, prato feito baratinho […] Acredito que a presença de casais lésbicos negros nos espaços são importantes para que possamos nos reconhecer e reconectar.” Jhennifer Santine, 23 anos. Se identifica como “sapa preta de quebrada”, amante da cultura popular.

Outra grande questão que fomenta a exclusão do não branco no turismo é o significado de viagem. Bitonga Travel lembra que viajar não é simplesmente se deslocar para o exterior, fazer um plano de viagem, se hospedar num hotel prestigioso. Viajar vai muito além disso. É quando saímos do ABC e vamos para o centro da cidade, é quando visitamos nossa tia na cidade vizinha. É quando retornamos ao bairro que crescemos.

 

“Viajar é IR! Não estamos sozinhas, estamos a viajar pelas nossas cidades e pelo nosso mundo. Reunir mulheres negras é nos fortalecer e dizer que SIM, estamos presentes e somos viajantes.”

Rebecca Alethéia, 33 anos. Mulher negra afro-latino-americana e caribenha.

 

Para mulheres negras, viajar é pisar fora de casa e estar presente no mundo. Ou melhor, não só presente, mas resistente. Ser o peixe que nada contra a correnteza. Por isso, convidamos todas a viajar. Seja de avião, de barco, de ônibus, de bicicleta, a pé, ou meramente com o coração.

Mary Ellen, escritora.