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Festa da Boa Morte

Um roteiro imperdível pela Festa da Boa Morte, uma das mais tradicionais manifestação da cultura negra de Cachoeira, no Recôncavo Baiano

Quem deseja conhecer uma autêntica manifestação cultural da Bahia deve viver de perto a Festa da Boa Morte, uma das mais tradicionais celebrações da memória e da cultura negra do Recôncavo Baiano! Berço do Samba de Roda,  Cachoeira é palco da procissão que ocorre há mais de 230 anos pelas ruas históricas da cidade colonial, nas margens do Rio Paraguassu, um dos mais importantes da Bahia.

A Festa é organizada pela Irmandade da Boa Morte, uma associação formada por mulheres negras, com mais de 40 anos de idade. A irmandade era um espaço de afirmação e resistência das mulheres e da cultura negra na sociedade. 

Durante as celebrações, mais de 60 mil pessoas acompanham as festas, entre turistas de todo o País, da Europa e principalmente dos Estados Unidos da América.

Em função da pandemia, entretanto, este ano a celebração será diferente. Ao invés da peregrinação das senhoras pelas ruas de Cachoeira, buscando doações para manter vivo o trabalho de preservação cultural, desta vez a coleta será virtual  – por meio uma vaquinha online.  

A celebração também acontecerá com eventos online,   como lives de orações e a transmissão da Missa Gratulatória. Haverá mesas de debate  de temas como a importância do registro da festa como Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2010 (Decreto Estadual 12.227/2010), Resistência, Fé e religiosidade da mulher negra, o lançamento da revista, entre outros. 

As atividades acontecerão de 13 a 17 de agosto e serão transmitidas pela UFRB TV no Youtube e no canal da Irmandade da Boa Morte. A programação pode ser acompanhada neste link.

Conheça mais sobre a Irmandade

O Recôncavo Baiano é a região da Bahia onde as tradições africanas foram mais preservadas e Cachoeira, uma espécie de Meca para onde acorrem negros em busca de suas origens. 

De acordo com a página da Irmandade, a história da confraria religiosa da Boa Morte se confunde com a maciça chegada de escravizados da costa da África para o Recôncavo, onde havia muitas fazendas de cana-de-açúcar, tabaco e outras plantações. Durante mais de três séculos,  Cachoeira foi a segunda cidade em importância econômica  da Bahia.

No Brasil Colônia, embora houvesse outras irmandades para diferentes classes sociais e perfis raciais, quase nenhuma era exclusiva de mulheres.  Para que uma irmandade funcionasse legalmente, diz o historiador João José Reis, precisava encontrar uma igreja que a acolhesse e ter aprovados os seus estatutos por uma autoridade eclesiástica.

Constituída por mulheres descendentes de escravizados, a Irmandade da Boa Morte foi fundada por volta de 1820 em uma sociedade patriarcal e marcada por forte contraste racial. Para ingressar na irmandade, até hoje é necessário ter mais de 40 anos (noviças). Atualmente, a irmã mais velha, Dona Filhinha, tem 107 anos.

A maior parte dos registros sobre a Irmandade foram perdidos em um incêndio em uma das igrejas em que ela ficava sediada, em 1984. A estimativa é que em sua fase mais forte, a organização teve mais de 200 integrantes. Apesar do valor histórico, somente em 2010 a Irmandade foi reconhecida como Patrimônio Imaterial da Bahia. 

A confraria sempre obrigou aos seus membros a colaborarem. Jóias de entrada, anuidades, esmolas coletadas e outras formas de renda sempre foram usadas para os mais diversos fins: compra de alforria, realização de festejos, obrigações religiosas.

A Irmandade se tornou referência internacional pela riqueza cultural e pelo papel de representação social e política das integrantes. As irmandades eram espaços estratégicos para os antigos escravizados, onde podiam professar a religião dominante sem abrir mão de suas crenças ancestrais. 

Embora vinculada à diferentes igrejas tradicionais da elite colonial local, as mulheres introduziram aos atos litúrgicos, diversos rituais e símbolos de matriz africana, com banquetes oferecidos a todos os participantes e muito samba de roda – elementos que ainda hoje caracterizam as celebrações! 

Na época estimada da fundação – cerca de 70 anos antes da abolição da escravatura – Cachoeira era povoada por descendentes dos povos Jejes e Ketus, de diferentes regiões africanas, muitos já alforriados pela articulação das irmandades e em função do êxito ecônomico da cidade  – que deixava de lado o plantio de açúcar para se tornar produtora de Tabaco de alta qualidade e um porto exportador da produção regional. 

Em um período políticamente tenso, com conflitos pela independência e  abolição da escravatura, houve diferentes iniciativas religiosas e civis para a emancipação dos negros. Cosmopolita, os descendentes de africanos mantinham fortes vínculos com os negros escravos de muitas cidades, sobretudo de Salvador, e atuaram em levantes pela independência política e abolição da escravatura no País – como a Revolta dos Malês (1835). 

Para conhecer toda a riqueza desta manifestação cultural tipicamente afrobrasileira, nada melhor do que uma experiência imersiva e única! Nossa parceira AfroTours é especializada no turismo étnico na Bahia e nos levará a conhecer a festa por dentro! Em 2021, estaremos lá! 

#VivaDiaspora

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