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30 de janeiro de 2019

Volte e aprenda com o passado

É o que diz o provérbio africano personificado na adrinka do logotipo da marca da Rota da Liberdade, projeto que vamos homenagear aqui

 

Uma mulher solar

Solange Barbosa é consultora da Unesco, historiadora, técnica e agente de turismo, especialista em cultura afro na região do Vale do Paraíba, coordenadora do Centro Cultural Afrobrasileiro Zumbi dos Palmares, vice-presidente da ABRATURR SP e idealizadora da Rota da Liberdade, projeto pioneiro de valorização da cultura negra brasileira e regional, escolhido entre mais de 600 inscritos como um dos 10 melhores projetos em geoturismo do mundo pela National Geographic.

Sol, como é mais conhecida, é mesmo uma pessoa solar: cheia de vida, energia e luz, iluminando com seu conhecimento quem tiver a sorte de trocar umas palavrinhas com ela. Nascida em São Paulo, filha de uma costureira paulista e um metalúrgico pernambucano, levou uma vida de labuta antes de se encontrar no turismo. Estava morando em Taubaté quando ouviu falar em turismo pela primeira vez, aos 32 anos de idade. Na TV passava uma matéria sobre as cidades do Vale Histórico, antes chamadas de Fundo do Vale, afirmando que dali a dez anos essa região seria o segundo maior destino turístico do Brasil. Sem entender direito o que isso significava, mas intuindo uma potência que só as guerreiras mais sagazes conseguem ouvir, Sol decidiu que queria isso para a sua vida. E em 1999, ela entra na primeira turma do curso técnico de turismo de Pindamonhangaba.

Alguns anos mais tarde, ela vai estudar história na Universidade Salesiana de Lorena, como bolsista da Educafro. Com quatro filhos, separada, morando a 50 quilômetros da faculdade, Sol consegue um estágio no Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV) e passa a cuidar da biblioteca da instituição. E é ali, com os livros, que ela entende a importância do negro na construção da riqueza cultural do Vale do Paraíba: “Se existia uma riqueza cultural, histórica, social e econômica naquela região era por conta da presença do negro”, afirma.

Iluminar, germinar e semear

Durante o curso de turismo, seus professores falavam bastante sobre a valorização da cultura regional. No curso de história, diziam que era importante conhecer a história local para então entender o que é o mundo. Sol não se esqueceu das lições aprendidas.

Em 2004, em uma reunião de um dos movimentos negros de que era próxima, ela toma contato com a Rota do Escravo da Unesco, projeto mundial de mapeamento da diáspora africana que naquele ano completava dez anos. Começava-se a falar sobre turismo de memória. Em suas pesquisas, ela descobre a Rota Turística das Abolições na França, que compreendia cinco roteiros de memória pelos principais lugares onde se desenvolveram os processos de abolição da escravatura ali. Entendendo o potencial de sua descoberta em um país como o Brasil, Sol entra em contato com o coordenador do projeto e se aproxima dos professores de turismo de sua faculdade, que a incentivam e orientam. Nascia assim a Rota da Liberdade.

Originalmente, o projeto se chamava Rota do Escravo, lançado em setembro de 2006 em Sorocaba, como um produto oficial da Secretaria de Turismo. Aquele sábado foi todo dedicado à cultura negra local: teve coral gospel, mestre de congada, quilombolas da região, jongo, coral afro, entre outras manifestações.

O trabalho de mapeamento das comunidades negras na região do Vale do Paraíba realizado pela Rota da Liberdade é inédito. E o projeto que germinou com o objetivo de valorizar e difundir a cultura negra da região logo vira semente – antes, era o único roteiro de turismo afro do Estado de São Paulo; hoje são vários. Sol abriu caminhos.

Florescer em comunidade

Voluntária do Quilombo da Caçandoca, em Ubatuba, desde 2000, Sol conhecia as riquezas da cultura local e via que o turismo seria uma importante fonte de desenvolvimento para a comunidade. Passou então a desenvolver roteiros turísticos para esse e outros locais, onde os visitantes poderiam aprender com as lideranças e, principalmente, quebrar seus preconceitos.

O preconceito, esclarece, está presente de todos os lados: na comunidade que não teve o direito de contar sua própria história, nos brancos que só conhecem um lado da história, e nos pretos que ouviram a mesma história de inferiorização a vida toda. Se venderam para o negro que ele era menos, que não era bonito, capaz nem inteligente, se negaram todas as suas narrativas de direito, se ele tem medo de chegar ao quilombo e ver um espelho de todas essas construções falsas, como se libertar? Com conhecimento, Sol responde. Porque, ao chegar no Quilombo da Fazenda em Ubatuba e ouvir o sr. Zé Pedro, de 82 anos, dizer que ele que fez a gigantesca roda d’água que funciona há 150 anos, o espelho mostrará orgulho, habilidade e sabedoria: “Engenheiro? Eu sou! Isso só funciona porque eu faço funcionar”. Fica aqui a reflexão da Sol: “Quanto preconceito você não derruba e quanto conhecimento você não agrega na relação com essas comunidades?”.

Para ela, o projeto é tão importante e bonito porque as próprias comunidades reconhecem o seu valor no contato com o outro, enquanto se percebem detentores de conhecimentos e saberes únicos. Além disso, há a geração de renda e as trocas proporcionadas pelo turismo responsável. “A Rota da Liberdade possibilita que as comunidades sejam agentes ativos dessa construção, dessa participação, e não um objeto que o turista vê e vai embora sem perceber o quanto é importante, e a comunidade também não percebe”, diz Sol no documentário Rota da Liberdade (2009), de Ana Carolina Tayo Ikeda.

“O mais importante da Rota e que eu pude ver de perto ao fazer o documentário é seu caráter participativo, que vai muito além dos roteiros turísticos. São artistas, pesquisadores, moradores e descendentes, todos juntos na luta pela preservação de uma cultura muito rica, mas ainda pouco valorizada. Vi que é preciso muito empenho e apoio para que essas pessoas consigam levar à frente seus projetos, foi o que tentei destacar no vídeo. O grande ícone dessa batalha é a Solange Barbosa, idealizadora da Rota. Espero que o projeto ganhe cada vez mais destaque, pois desempenha uma função social imprescindível para as comunidades negras”, Ikeda afirmou, à época do documentário.
Quando perguntada sobre o que mais gosta nesse trabalho, Sol responde sem hesitar: “Tudo: contar para as pessoas o que é o negro brasileiro, difundir a riqueza das comunidades, ver os preconceitos serem desmontados”.

Colhendo primaveras

Sol ouviu falar da Diaspora.Black pela primeira vez em suas redes sociais, e logo procurou uma aproximação com a plataforma. A parceria deu mais que certo: ela faz as operações e conexões necessárias para dar vida aos roteiros, e a Diaspora.Black vende os produtos, atingindo o público certo. “A Rota da Liberdade é um sonho, e a potência dele foi multiplicada por dez quando encontrei a Diaspora.Black”.

Veja abaixo os roteiros da Rota da Liberdade disponíveis em nosso site: